julho 28, 2014

Como assim? (sobre mamadeiras e papai noel)

Cartaz da Organização Mundial de Saúde sobre os benefícios do aleitamento materno. O leite artificial, contudo, não é o único potencial problema na alimentação de muitos bebês, pois, em sua administração, a parceria com a mamadeira potencializa os riscos de morbidade e de mortalidade infantil.

*Este é um guest post escrito pela professora do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio Cristine Nogueira Nunes*

Desde garota (eu tenho 55 anos), ouço meu pai dizer que Coca-Cola é um produto corrosivo, que serve pra limpar as sujeiras mais encrustadas. Imaginem o que ela não faz no estômago de vocês!, bradava ele. Mas a cada lançamento de cigarro, lá vinha ele trazendo um maço pra gente experimentar. É, isso mesmo. Na televisão verdadeiros atletas escalavam o Himalaia ou algo do gênero e, ao chegar ao topo, acendiam um cigarrinho pra comemorar.

Eu resisti muito a provar comida japonesa. Depois de algumas tentativas, descobri que o sabor mais prazeroso pra mim, na face da terra, é o do salmão cru. E estava bem, mas bem feliz mesmo com isso. Até ler o texto de Marisa Silveira sobre o salmão, dizendo que ele é de cativeiro, que toma antibióticos, que aquela cor linda é corante porque salmão assim não tem por essas bandas: aqui eles são cinza. Eu não sei o que aconteceu comigo, juro. O fato é que passei a ficar embrulhada a cada vez que comia um sashimi. Nada grave, mas um lance desconfortável, que me tirou completamente o prazer… Eu, sinceramente, preferia não ter sabido de nada disso. Viver protegida pela ignorância desses fatos era maravilhoso. Agora, ferrou…

Pensando bem, o que sabemos sobre os produtos industriais além daquilo que mais eloquente e insistentemente nos conta a publicidade?, aquela disseminada pela mídia mas também pelas fortíssimas influências da cultura que se edifica a partir dela, da mídia?

De repente -eu me sinto assim- é como se a gente se desse conta de que Papai Noel não existe, de que muitas das coisas nas quais acreditávamos, felizes, são na verdade construções feitas com tijolos que podem se desmanchar feito areia depois de uma simples pesquisa. Ou até com menos do que isso: um simples olhar crítico, tão comum às crianças, que pergunte o que é isso, por que isso é assim e não assado e pra que serve isso?

Quando minha filha nasceu, eu tinha 30 anos. O leite desceu fácil e era um grande prazer amamenta-la. Quando porém foi se aproximando o final da minha licença-maternidade, eu e minha mãe fizemos de tudo pra ela aceitar a mamadeira, claro. Só que não houve jeito: ela estranhava o bico, chorava até não poder mais, e quando finalmente aceitou o produto, era mamar e vomitar tudo logo depois. Passei pro leite de soja. Melhorou. Até que aos quase dois anos de idade ela nos disse: hoje tomarei minha última mamadeira! porque já sou grande!

O tempo passou, passou e passou.

Eu sou designer.

Ela fez cinco anos e eu pensei: já dá pra tentar um mestrado.

Fiz mestrado e, um tempão depois, fiz doutorado.

Foi nessa última fase que ouvi de um pesquisador da Fiocruz: você sabia que a mamadeira é um produto extremamente nocivo para as crianças?

Como assim!!!!!?????

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julho 15, 2014

Salmão com maquiagem?

Foto por Astacus, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Astacus, Flickr, Licença Creative Commons

Quando eu era criança, salmão era um peixe muito caro e relativamente difícil de ver nos menus dos restaurantes e nos supermercados da cidade. De uns anos para cá, seu preço reduziu consideravelmente e o peixe rosado passou a ser onipresente na cena gastronômica das grandes cidades. Hoje em dia, é facílimo encontrar salmão em restaurantes a la carte, em restaurantes a kilo e, obviamente, nos restaurantes japoneses que se multiplicaram pelos centros urbanos no Brasil.

Vocês já pararam para pensar como isso aconteceu? Por que será que o salmão se transformou em um peixe muito mais acessível do que ele era até os anos 90? Sendo um peixe de águas frias, o salmão não é encontrado na costa brasileira. De onde vem, então, o peixe que deixou de ser exclusivo do prato dos mais privilegiados economicamente e virou peixe do dia-a-dia, amplamente recomendado por especialistas por seus supostos benefícios à saúde, inclusive a grávidas e a crianças pequenas?

O habitat natural do salmão é o Atlântico Norte e o Pacífico Norte. Contudo, as reservas naturais do peixe rosado tornaram-se escassas há muitos anos, devido à intensa exploração da espécie para consumo humano, à construção de usinas hidrelétricas em rios que abrigam o peixe e à forte poluição de rios e mares dos quais o salmão depende (o peixe passa a maior parte da vida nos mares, mas se reproduz nos rios). Como, então, a disponibilidade do salmão para o consumidor (no Brasil e no resto do mundo, diga-se de passagem) continua aumentando de modo considerável se as reservas naturais do peixe encontram-se reduzidas?

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julho 3, 2014

O desagradável problema das fraldas biodegradáveis

Foto por Beth Darbyshire, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Beth Darbyshire, Flickr, Licença Creative Commons

A fralda descartável é uma invenção relativamente recente da humanidade. Tão recente que as primeiras fraldas a serem comercializadas, há cerca de 40 anos, continuam no mesmo lugar onde foram parar após terem sido descartadas pelos pais de bebês da década de 70. Sim, foi isso mesmo que você leu. Se você tem idade para, quando bebê, ter usado fraldas descartáveis, saiba que elas ainda existem.

Feitas majoritariamente de plástico (isto é, petróleo) e celulose (isto é, árvores) e branqueadas com o uso de cloro, as fraldas convencionais têm uma cadeia de produção altamente poluente e demoram MUITO tempo para se decompor. De acordo com o Serviço de Parques Nacionais dos EUA, uma fralda descartável convencional leva cerca de 450 anos para se decompor.

Considerando a quantidade de fraldas usadas por um bebê até a idade em que o desfralde costuma acontecer (um estudo da National Geographic estimou que sejam, em média, 3.796 fraldas), não dá para negar que um bebê produz muito lixo em forma de fralda.

Diante disso, algumas empresas têm investido em fraldas mais ecológicas, sem o uso de cloro, sem fragrâncias sintéticas e com celulose certificada pelo FSC (Forest Stewardship Council, organização sem fins lucrativos que promove o manejo sustentável de florestas), reduzindo um pouco o impacto ambiental associado ao processo de produção das fraldas. Algumas marcas têm investido ainda na produção de fraldas feitas a partir de materiais biodegradáveis, como o bioplástico de amido de milho, por exemplo, na tentativa de resolver o problema do descarte. Essas empresas têm investido, também, bastante dinheiro no marketing de seus produtos, focando, obviamente, em seus benefícios ecológicos.

Que maravilha, certo? Infelizmente, a história não é tão simples assim. Algumas empresas se “esquecem” de explicar, no material de divulgação, que as fraldas não são biodegradáveis em aterros sanitários, destino final da maioria delas. Não é que as fraldas não sejam biodegradáveis. Elas são. Mas precisam estar no ambiente adequado para que a decomposição aconteça de forma rápida. E aterros sanitários não oferecem esse ambiente, pois não há oxigênio e umidade suficientes. De que adianta descartar a fralda biodegradável junto com o lixo comum, dentro de um saco plástico convencional, para, literalmente, enterrá-la no aterro sanitário?

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