Meu filho mamando e sorrindo ao mesmo tempo. Crédito: Eco Maternidade

Meu filho mamando e sorrindo ao mesmo tempo. Crédito: Eco Maternidade

“Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer.” Michel Odent

Acho que dois dos assuntos mais discutidos na blogosfera materna brasileira são amamentação vs leite artificial e parto normal vs cesariana. Esses tópicos mexem com os ânimos de muita gente. Minha intenção com este post não é escrever mais um texto mostrando os benefícios do aleitamento materno nem do parto normal. O que eu pretendo fazer é escrever sobre o assunto levando em consideração, obviamente, o tema que orienta este blog. Em outras palavras, pretendo apresentar uma discussão ecológica sobre o nascimento de um bebê humano e sobre o aleitamento materno.

Todo mundo conhece pelo menos alguns dos motivos que levam uma mulher a optar por uma cesariana e/ou a usar o leite artificial para alimentar um bebê, não é?

Digamos que alguns desses motivos sejam ‘internos’, isto é, percepções e ideias que habitam no imaginário feminino e que outros motivos sejam ‘externos’, isto é, práticas e atitudes de outras pessoas, instituições ou empresas que influenciam a maneira como os bebês brasileiros nascem e são alimentados.

No caso da cesariana, alguns dos motivos ‘internos’ são o medo de sentir dor durante o parto normal, o receio de que o parto normal ‘alargue’ a vagina, a sensação de controle ao agendar a cirurgia, entre vários outros.

No que diz respeito à amamentação, apesar de a conscientização sobre os benefícios do leite materno estar aumentando, existe a percepção de que o leite materno é fraco e de que muitas mulheres não têm leite em quantidade suficiente, há preocupação com a aparência dos seios após o desmame e muita gente se sente desconfortável com a ideia de amamentar em público, seja fora de casa ou em casa na frente de pessoas com quem não se tem intimidade.

São vários os motivos ‘externos’ para a perpetuação de cesarianas desnecessárias no Brasil. Limitar-me-ei a mencionar somente um desses motivos, que me parece pouco explorado nas discussões sobre o assunto que já li. A meu ver, a inexistência, no setor privado, de grupos de obstetras que trabalhem se revezando em plantões é pelo menos parcialmente responsável pelos altíssimos índices de nascimentos por via cirúrgica no Brasil.

Nos EUA, por exemplo, onde as taxas de cesarianas são bem mais baixas, de maneira geral, cada gestante tem seu obstetra, que acompanha toda a gestação. Mas o parto em si é feito pelo obstetra do grupo que estiver de plantão no dia. O modelo tem desvantagens, é claro. Corre-se o risco de ter um médico desconhecido durante o parto, por exemplo. Mas o modelo traz a enorme vantagem de ter um médico qualificado à sua disposição no hospital, ganhando para estar ali de qualquer forma, ou seja, sem pressa para voltar ao consultório e ganhar mais dinheiro ou sem pressa para sair de férias ou viajar no feriado.

Como motivos ‘externos’ para os baixos índices de aleitamento materno, há pressão para a mulher voltar ao mercado de trabalho e não há muito incentivo para a amamentação na esfera pública (isto é, dificilmente se vê, em filmes ou novelas, alguma cena de uma mãe amamentando seu bebê, por exemplo, e muitas bonecas são vendidas com uma mamadeira como acessório). Além disso, o marketing da indústria de fórmulas beira a criminalidade (vide o último episódio envolvendo a Pais e Filhos).

Mesmo tendo conhecimento de todos os motivos acima e ainda de outros, me pergunto por que o nascimento por via cirúrgica e o leite artificial conseguiram tanto espaço na vida de tantos bebês. Ou seja, por que muitas mulheres e a sociedade de maneira geral deixaram de acreditar na capacidade fisiológica das fêmeas humanas de parir e amamentar seus filhos? Por que o leite artificial foi tão bem aceito pela sociedade? Por que eu, que ainda amamento meu filho de 1 ano e 7 meses, ouço comentários negativos da minha própria família?

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