Crédito: Eco Maternidade

Fileiras de latas de fórmula láctea. Qual é o impacto ambiental do leite artificial e da lata que o armazena? Crédito: Eco Maternidade

Que o leite materno é muito melhor para a saúde dos pequenos do que a fórmula láctea muita gente sabe. Mas você já parou para pensar no impacto ambiental das duas formas de alimentar um bebê? Eu não poderia dar continuidade à série de posts sobre alimentação infantil sem escrever sobre a relação entre o primeiro alimento da vida de um ser humano e o meio ambiente.

Uma diferença bem óbvia entre o leite materno e a fórmula láctea infantil vem do método de produção de cada um. Para ser produzido, o leite materno requer, no máximo, calorias extras ingeridas pela mãe. Do ponto de vista ambiental, isso significa mais recursos para a produção de mais alimentos.

A fórmula infantil, por sua vez, necessita de todo um processo de produção com uma pegada ambiental bem alta até chegar ao consumidor: produção da matéria-prima da fórmula em si (feita, normalmente, a partir do leite de vaca ou do leite de soja), processamento industrial para transformar em algo digerível por um bebê (adição de outros ingredientes, etc), acondicionamento em embalagens (que, por sua vez, também precisam de energia e matéria-prima para serem produzidas) e transporte (em várias etapas de produção: matéria-prima para embalagem, embalagem pronta mas ainda vazia, embalagem já com produto final e produto final até o consumidor).

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Fábrica de fórmula infantil. Muita energia e muitos recursos para produzir algo que a natureza nos dá. Foto por KONOLFINGEN, no Flickr, Licença Creative Commons

Em relação às embalagens, há ainda a questão do descarte. Por mais que algumas latas de fórmula láctea sejam reaproveitadas para outros fins (como, por exemplo, o plantio de mudas), a realidade é que a maioria das latas é descartada junto com o lixo comum. Com uma vida útil tão curta, essas embalagens têm um alto custo ambiental.

Acho que é desnecessário dizer qual maneira de alimentar um bebê é melhor para o meio ambiente, não é?

O aleitamento materno teria ainda uma vantagem ambiental adicional não tão óbvia quanto as questões levantadas acima. Bebês que mamam no peito são expostos a diversos sabores através do leite materno, que varia de acordo com o que a mãe come, ao contrário da fórmula infantil, que tem o mesmo sabor sempre.

Conforme sugerem pesquisas na área, esse contato inicial com os sabores transmitidos pelo leite materno teria um impacto positivo em um momento posterior: crianças que mamam no peito, por estarem acostumadas a uma variedade de sabores via leite materno, tendem a aceitar melhor alimentos sólidos e apresentam menos resistência para experimentar comidas desconhecidas (clique aqui para ler um artigo sobre o tema em inglês e aqui para escutar o Dr Drauzio Varela falar sobre a formação do paladar infantil).

Será que o impacto desse contato inicial com diferentes sabores via leite materno e a melhor aceitação de alimentos sólidos teria um efeito prolongado? Em outras palavras, será que bebês que mamam no peito se tornam crianças e adultos com o paladar mais aberto a uma alimentação variada, na mesma linha da variação que tiveram via leite materno?

É pura especulação da minha parte, mas não consigo evitar a analogia entre leite materno e dieta saudável e entre fórmula infantil e alimentos processados. Ambos são carentes de sabores complexos e ambos são tentativas da indústria alimentícia de imitar alimentos naturais.

Ok, e o que isso tem a ver com o meio ambiente? Além dos evidentes benefícios à saúde, uma dieta variada, composta por comida de verdade, tem uma pegada ambiental bem menor do que uma dieta composta, em grande parte, de itens processados (isto é, refeições congeladas, biscoitos e salgadinhos industrializados, sucos prontos e muitos outros desenvolvidos pela indústria para viciar o paladar).

A fórmula láctea é necessária para algumas famílias e salva vidas. Mas vale lembrar que os casos em que uma mulher é verdadeiramente incapacitada de amamentar são raros. Os problemas mais comuns enfrentados por quem tenta amamentar e não consegue podem ser contornados com orientação adequada por um profissional especializado em aleitamento materno. Se você está grávida, procure um grupo de apoio ao aleitamento de sua cidade. Os sites Aleitamento.com, Amigas do Peito e Amamentar É são excelentes pontos de partida.