Meu filho brincando ao ar livre. Crédito: Eco Maternidade

Meu filho brincando ao ar livre. Crédito: Eco Maternidade

Por que será que o ser humano dá preferência, sempre que possível, a morar, ou pelo menos passar férias, em um lugar com vista para a natureza (árvores, uma montanha ou o mar)?

Pois essa preferência não parece ser decorrente somente de uma questão estética. Ou seja, não é somente porque uma vista para a natureza é bonita e agradável para os olhos. Estudos têm demonstrado que a proximidade a áreas verdes é de fundamental importância à nossa saúde mental. E mais: o contato direto e regular com a natureza parece ser crucial também para a nossa saúde física.

No caso de crianças, brincar ao ar livre seria muito mais do que aprender sobre o meio ambiente ou sustentabilidade e muito mais do que arejar ou respirar ar puro. A natureza oferece às crianças uma infinidade de experiências sensoriais que não podem ser fabricadas artificialmente.

A terapeuta ocupacional pediátrica Angela Hanscom acredita que todas as crianças devem ter a oportunidade de brincar livremente na natureza. Para ela, o ato de brincar em áreas verdes é fundamental na prevenção de problemas relacionados ao desenvolvimento do sistema sensorial. Angela é fundadora do TimberNook, um programa de atividades para crianças na natureza, com sede no estado de New Hampshire, EUA, e autora do livro Balanced & Barefoot (a sair, em inglês).

Segundo Angela, para que o sistema sensorial de crianças se desenvolva bem, elas têm de se movimentar, seus corpos têm de se deslocar de forma multidirecional por longos períodos de tempo. Assim como no caso da prática de exercícios, as crianças precisam se movimentar com frequência para obterem resultados. Uma aula de futebol ou de capoeira uma ou duas vezes por semana ou 20 minutos de recreio na escola, por exemplo, não seriam suficientes.

Para Angela, muitas crianças têm dificuldade de prestar atenção dentro da sala de aula porque têm poucas oportunidades para se movimentarem livremente ao longo do dia. Sentam-se irrequietas na cadeira porque seus corpos precisam desesperadamente de movimento.

E não há nada melhor do que se movimentar ao ar livre e perto de áreas verdes.

Ao brincar em contato com a natureza, as crianças são expostas a diferentes estímulos sensoriais: circulação de ar, mudança de temperatura, a luz do sol, sombras, uma variedade de texturas (troncos de árvores, terra, folhas, areia, grama, etc), e sons. A exposição a esses estímulos traz inúmeros benefícios. Escutar o canto de passarinhos ao ar livre, por exemplo, ajuda na formação da consciência espacial dos pequenos. Ao caminhar ou engatinhar em diferentes terrenos (e suas variações de inclinação, textura, etc), a criança trabalha a musculatura de suas pernas (e braços).

Não é à toa que o Outdoor Discovery Center, uma ONG no estado de Michigan, nos EUA, criou, com a colaboração de pediatras e educadores, uma campanha para melhorar a saúde de crianças de 3 a 6 anos através de atividades na natureza. Além de cartazes e panfletos informativos, a campanha também criou ‘receitas médicas’ que os pediatras passam aos pacientes para incentivá-los a incluir atividades ao ar livre. É lógico que as receitas são uma brincadeira, mas são uma brincadeira muito séria.

Seguindo uma filosofia semelhante à da terapeuta ocupacional Angela Hanscom e dos especialistas por trás da campanha no estado de Michigan, têm surgido cada vez mais pré-escolas ao ar livre em vários países. Vocês leram certo: pré-escolas ao ar livre! Em vez de passar o dia dentro da sala de aula, um tempinho no pátio da escola e fazer alguns passeios fora da escola ao longo do ano, como acontece com as crianças de pré-escolas convencionais, as crianças de pré-escolas ao ar livre passam o dia todo do lado de fora, em áreas verdes, independente do clima. Para essas crianças, é sempre dia de passeio! Vale dizer que muitas dessas escolas ao ar livre se encontram em países do hemisfério norte, em regiões de muito frio e muita chuva durante parte do ano (EUA, Canadá, Japão, Reino Unido, países escandinavos, entre outros). O lema de todas elas é: não existe tempo ruim para estar ao ar livre e sim roupas inadequadas.

As crianças de uma pré-escola ao ar livre no estado de Washington, na costa oeste dos EUA, por exemplo, passam o dia no meio do mato, em uma área de floresta de cerca de 2 hectares. Brincam na lama, sabem quais folhas são comestíveis e se esbaldam com frutas silvestres, as quais chamam de ‘balas da floresta’. Há professores, é claro, mas eles não têm um plano de aula. As crianças fazem o que querem. À primeira vista, pode parecer o cenário perfeito para o caos, mas tudo flui muito bem.

Segundo a fundadora da pré-escola, as crianças têm ótima concentração quando permitimos que elas façam as coisas no ritmo delas, escolham atividades que aticem sua curiosidade e ponham a mão na massa, isto é, explorem as coisas de forma prática. A fundadora da escola em Washington acredita que não há como as crianças ficarem agitadas a ponto de subirem pelas paredes quando não há paredes!

E mais: brincar ao ar livre ainda reduz o risco de a criança voltar para casa com alguma virose transmitida pelo coleguinha de turma. Afinal, não é o frio ou a chuva que fazem com que a criança fique doente, e sim os germes que são facilmente transmitidos em ambientes fechados.

Obviamente, pré-escolas ao ar livre estão longe da realidade da maioria de nós. Mas será que as pré-escolas convencionais e os próprios pais não poderiam se esforçar para ampliar o tempo em que as crianças, principalmente, as menores, passam em contato direto com a natureza?

O que é mais importante para uma criança pequena? Decorar o abecedário ou brincar ao ar livre o máximo de tempo possível?

REFERÊNCIAS E MAIS INFORMAÇÃO:

http://www.washingtonpost.com/blogs/answer-sheet/wp/2014/07/08/why-so-many-kids-cant-sit-still-in-school-today/

http://www.janetlansbury.com/2014/06/your-babys-call-of-the-wild-guest-post-by-angela-hanscom/

http://www.balancedandbarefoot.com/blog/the-real-reason-why-children-fidget

http://www.psychologytoday.com/blog/people-in-nature/200901/no-more-nature-deficit-disorder