abril 11, 2016

Medo de brócolis?

Foto por Simon Wheatley, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Simon Wheatley, Flickr, Licença Creative Commons

“Meu filho comia de tudo quando era bebê. De repente, parou de aceitar várias coisas.”

Já perdi a conta de quantas vezes li algo parecido com o trecho acima em grupos de maternidade na internet. Tem gente que diz que é fase, tem gente que diz que é diminuição de apetite, tem gente que diz que é dente nascendo. Mas isso não explica tudo. Afinal, muitas das crianças que passam a rejeitar os legumes e as verduras continuam aceitando, de braços abertos, biscoitos, leite achocolatado, bolos, pães, frituras, etc. E que “fase” é essa que muitas vezes dura anos ou até décadas?

Para mim, a rejeição repentina acontece, pelo menos em parte, porque os pequenos têm medo de experimentar alimentos novos. Entre 1 e 2 anos, muitas crianças desenvolvem o que os especialistas chamam de neofobia alimentar, isto é, medo de experimentar algo novo.

O que é exatamente a neofobia alimentar? O tal medo de experimentar alimentos novos é resquício de uma tática de sobrevivência de nossos antepassados que aparece na mesma época em que o bebê dá os primeiros passos. Mas o que aprender a andar tem a ver com resistência na hora da refeição?

Bebês andantes são, em princípio, capazes de começar a sair em busca dos próprios alimentos (forragear), mas ainda não têm experiência para saber o que é comestível ou não. Para reduzir as chances de se envenenarem, passam a rejeitar alimentos desconhecidos. Em outras palavras, a neofobia alimentar seria um mecanismo evolutivo de proteção da nossa espécie, para diminuir o risco de bebês ingerirem algo tóxico.

“Mas, se a criança comia tudo antes, os alimentos que passou a rejeitar não são novos ou desconhecidos!”, você deve estar se perguntando.

São, sim, eu insisto. Se, quando bebê, a criança comeu papinha ou comida amassada por muito tempo, dada de colher por um cuidador, essa criança não “conheceu” de verdade o que estava comendo. Experimentar o sabor daquilo que lhe é servido por meio de colheradas não é suficiente para muitas crianças. Outros sentidos precisam ser acionados ao longo da introdução alimentar. Para, de fato, “conhecer” o alimento, a criança precisa explorá-lo com as próprias mãos, cheirá-lo e observá-lo em pedaços grandes, isto é, a criança precisa “brincar” com a comida.

Comparem as duas fotos acima. Qual bebê está tendo uma experiência sensorial mais completa? Foto à esquerda por Neal Patel, Flickr, Licença Creative Commons e foto à direita por Sami Keinänen, Flickr, Licença Creative Commons

Comparem as duas fotos acima. Qual bebê está tendo uma experiência sensorial mais completa? Foto à esquerda por Neal Patel, Flickr, Licença Creative Commons e foto à direita por Sami Keinänen, Flickr, Licença Creative Commons

Em outras palavras, comer brócolis na papinha ou misturado com arroz e feijão numa colherada dada pelo cuidador não é o mesmo que comer brócolis por livre e espontânea vontade após explorar um florete da verdura com a mão.

Para complicar um pouco mais as coisas para o lado dos pais e cuidadores, entre 1 e 2 anos de idade, chega, também, a fase da descoberta da autonomia. Os pequenos percebem que têm autonomia sobre o próprio corpo e passam a, adivinhem, dizer ‘não’ para muita coisa na hora da refeição. Não é a toa que muitos passam a recusar a troca de fraldas e de roupa, entre várias outras coisas …

Leia mais →

novembro 12, 2015

Na escola do meu filho …

Tem uma estação de marcenaria!

Outro dia, na pré-escola, o grupo do qual meu filho faz parte — composto de crianças entre 2 anos e meio e 3 anos incompletos — usou ferramentas de marcenaria. As crianças usaram martelo, prego e furadeira manual. De plástico? Não, tudo de verdade. Ninguém martelou ninguém na cabeça. Na verdade, não houve acidente algum.

Crédito: Eco Maternidade

Por que uma pré-escola haveria de criar um cantinho de marcenaria para crianças tão pequenas? Os motivos são vários e envolvem habilidades físicas, sociais e cognitivas. Além de ser uma atividade fascinante para os pequenos, trabalhar com marcenaria permite à escola criar um ambiente não-sexista. Outro ponto positivo da estação de marcenaria é que a criança aprende sobre regras de segurança (para participar, a criança precisa colocar luvas e óculos de proteção). Criar um espaço para marcenaria na pré-escola é, também, uma maneira de questionar a noção senso comum de que crianças são seres completamente incapazes.

Há muito incentivo à autonomia!

O incentivo à autonomia é levado muito a sério pela escola. Sempre que possível, de forma saudável e apropriado à faixa etária, as crianças são incentivadas a fazer as coisas por conta própria, de forma independente. Vestir o casaco, calçar os sapatos, ir ao banheiro, abrir a lancheira são todas tarefas que até mesmo crianças de 2 anos conseguem fazer com nenhuma ou pouca intervenção. Ao incentivar a autonomia, a escola está plantando sementinhas de auto-estima dentro de cada aluno. Afinal, quem não gosta de se sentir capaz?

As crianças aprendem a lidar com conflitos!

Criança pequena quer sempre brincar justamente com o brinquedo que está sendo usado pelo colega, não é? Quando existem este e outros tipos de conflito, os professores da pré-escola não recolhem o brinquedo disputado, não separam as crianças em desacordo e nem forçam nenhuma criança a pedir desculpas. Em vez disso, aproveitam a oportunidade para que as crianças aprendam a identificar seus sentimentos, a se expressar, a escutar o que os colegas têm a dizer e a encontrar, juntos, uma solução para continuarem brincando. Ao ajudar as crianças a solucionar conflitos, os professores dessa pré-escola evitam que se crie uma cadeia de abusos presente em tantas instituições escolares. A habilidade de resolução de conflitos, aliás, é algo útil para a vida toda, não? O mundo seria muito melhor se todos nós aprendêssemos a solucionar com conflitos ainda crianças.

Leia mais →

junho 17, 2015

O pirulito da discórdia

Foto por Ed Dale, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Ed Dale, Flickr, Licença Creative Commons

Alguns anos atrás, antes de nosso filho nascer, viajei com o marido e uns amigos para um parque florestal a cerca de uma hora daqui de Washington DC. Ficamos todos hospedados em um hotel dentro do parque. O hotel possui restaurante, mas nenhuma refeição está incluída na diária, nem mesmo o café da manhã. Na manhã seguinte à nossa chegada, um episódio que já rendeu muita conversa aconteceu após tomarmos café da manhã.

As contas das refeições feitas no restaurante devem ser pagas em um quiosque na porta do estabelecimento. Além de ponto de pagamento, o quiosque é também um café, servindo bebidas quentes, frutas e alguns pães. Estava na fila para quitar a conta com uma amiga e sua filha, que na época tinha um pouco menos de três anos.

Ao chegar no caixa, avistamos um enorme ‘porta-pirulitos’, que estava, obviamente, também no campo de visão da pequena de três anos. Preciso dizer qual foi a reação da menina? Com muita dificuldade, conseguimos pagar pelo café da manhã sem pagar também por um pirulito. Ao longo do dia, no entanto, o assunto voltou inúmeras vezes. A menina insistiu tanto para ganhar um pirulito que a mãe acabou cedendo e comprando um.

Contei esta história a alguns amigos. O episódio sempre acaba virando uma discussão ‘filosófica’ sobre a presença do porta-pirulitos no balcão do quiosque.

É ético o quiosque/café do hotel onde estávamos hospedados colocar o porta-pirulitos no balcão por onde todos que fazem refeição no restaurante têm que passar?

O porta-pirulitos deveria ou não estar disponível ao lado do caixa?

Leia mais →

maio 4, 2015

Carta de um bebê de 6 meses sobre sua introdução alimentar

Foto por Charlotte Coneybeer, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Charlotte Coneybeer, Flickr, Licença Creative Commons

Mamãe e papai,

Acabei de completar 6 meses. Resolvi escrever uma listinha de pedidos para facilitar a nossa vida agora que a minha introdução alimentar começou, ok? Por favor, leiam com carinho e acreditem em mim. Vamos lá!

1. Por favor, preparem a minha comida com muitos temperos naturais. Eu não gosto de comida sem graça. Quanto mais cedo eu me acostumar com gostos fortes, menos dificuldade de aceitação eu terei quando crescer.

2. Quando eu demonstrar interesse em pegar a comida com as minhas mãos, por favor, me deixem! Eu acabei de chegar ao mundo e aprendo muito, mas muito mesmo, através do tato. Eu vou fazer muita sujeira, mas vou aprender muito.

Leia mais →

março 17, 2015

Você acha que plástico livre de BPA é seguro? Pense novamente

Essa garrafa muito provavelmente é livre de BPA. Mas será que ela é segura? Foto por Gordon, Flickr, Licença Creative Commons

Essa garrafa muito provavelmente é livre de BPA. Mas será que ela é segura? Foto por Gordon, Flickr, Licença Creative Commons

Alguns anos atrás, pesquisas começaram a demonstrar que o Bisfenol-A é tóxico. A substância atrapalharia o funcionamento do sistema endócrino, o sistema que regula os hormônios no corpo humano, contribuindo para o desenvolvimento de uma série de doenças. A toxicidade do BPA foi amplamente divulgada pela imprensa e a má fama acabou chegando aos consumidores.

A substância foi, então, retirada de muitos produtos, principalmente os voltados para o público infantil, como mamadeiras, copos de transição e brinquedos.

A indústria pegou a onda do ‘sucesso’ do Bisfenol-A e relançou vários produtos com o selo ‘plástico livre de BPA’. Muitos pais compraram esses produtos acreditando que eles fossem realmente mais seguros para seus filhos.

Componente fundamental na fabricação de policarbonato (um tipo de plástico duro) e muito usado para revestir latas e garrafas, o Bisfenol-A não pôde ser eliminado das fórmulas dos produtos sem algo para substituí-lo. Para tal tarefa, a indústria tem usado muito um outro Bisfenol, o Bisfenol-S.

E se eu te contasse que pesquisas recentes têm indicado que o Bisfenol-S é provavelmente tão tóxico quanto o Bisfenol-A e também atrapalharia o funcionamento do sistema endócrino?

Leia mais →

fevereiro 23, 2015

Educação alimentar em florestas de concreto

Foto por Michel Bish, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Michel Bish, Flickr, Licença Creative Commons

Sabe aquele requeijão que você usa no café da manhã? Ele chega à sua casa após um longo processo de produção. O pote onde o requeijão é vendido é produzido numa fábrica de produtos de plástico ou de vidro e transportado até a fábrica de laticínios. Depois de pronto, o requeijão, já dentro do pote, vai para um centro de distribuição. De lá, parte para o supermercado. O transporte tem de ser feito dentro de um caminhão refrigerado e, no supermercado, o requeijão tem que ficar na prateleira refrigerada. Toda essa climatização gasta bastante eletricidade.

Já o pão nosso de cada dia tem grandes chances de ter sido feito com trigo produzido lá na Argentina. Várias outras coisas que consumimos vêm de longe. O transporte de alimentos, seja ele marítimo ou aéreo, gasta combustível, mas com esse valor energético quase ninguém se importa.

Aquela caxinha longa vida que armazena as bebidas disponíveis na prateleira dos supermercados é composta por seis camadas, incluindo camadas de plástico, uma de papel e uma camada de alumínio. Ou seja, só a cadeia de produção da embalagem é de uma complexidade e custo ambiental enormes. A produção de bauxita (matéria-prima essencial para a produção de alumínio), por exemplo, demanda muita, mas muita, energia elétrica.

Existem poucas coisas na vida do ser humano mais cruciais do que se alimentar. E, como os exemplos acima sugerem, poucas coisas estão tão relacionadas ao meio ambiente quanto o modo como nos alimentamos.

Diante disso, será que, como sociedade, damos atenção o suficiente à educação alimentar de crianças e adolescentes?

Leia mais →

dezembro 12, 2014

O que (não) fazer para seu filho comer bem – PARTE 5

Foto por Jay & Meg Rishel, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Jay & Meg Rishel, Flickr, Licença Creative Commons

O post de hoje é o quinto e último da série sobre alimentação infantil baseada nas ideias da terapeuta ocupacional Alisha Grogan. Alisha mantém o site Your Kid’s Table, com dicas preciosas para maximizar as chances de uma experiência bem-sucedida na hora da refeição.

Dica #5: Coma junto com seu filho

Alisha Grogan recomenda que pais comam junto com seus filhos, inclusive os bebês. Nem sempre é possível conciliar os horários da família, mas vale muito a pena se esforçar para que as refeições sejam feitas em família desde o início da introdução alimentar.

A criança que come em outro horário perde as oportunidades de socialização que as refeições em família oferecem. Além disso, ao colocar seu filho para comer antes do resto da família, você está abrindo mão de uma ferramenta muito poderosa na introdução alimentar, a ferramenta do exemplo. Quem convive com criança pequena sabe que elas adoram imitar os adultos e que observam tudo que fazemos. Mas muita gente esquece que isso também se aplica à alimentação.

Leia mais →

dezembro 11, 2014

O que (não) fazer para seu filho comer bem – PARTE 4

Foto por Eric Peacock, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Eric Peacock, Flickr, Licença Creative Commons

O post de hoje é o quarto da série sobre alimentação infantil baseada nas ideias da terapeuta ocupacional Alisha Grogan. Alisha mantém o site Your Kid’s Table, com dicas preciosas para maximizar as chances de uma experiência bem-sucedida na hora da refeição.

Dica #4: Brinquedos não combinam com a refeição

Não levar brinquedos para a mesa é uma regra óbvia para muita gente, mas é sempre bom citá-la. O brinquedo distrai e a criança bate um prato inteiro, o que, à primeira vista, parece uma ótima estratégia. O problema é que aprender a comer envolve muito mais coisas do que ingerir a comida que está no prato. E a criança distraída com um brinquedo presta atenção, obviamente, no brinquedo e não no alimento: não presta a devida atenção na diversidade de cores que compõem o prato, usa as mãos para manipular o brinquedo e não alimento (explorar a comida com as mãos é parte crucial da introdução alimentar), entre outras coisas.

Leia mais →

dezembro 10, 2014

O que (não) fazer para seu filho comer bem – PARTE 3

Foto por Erik Johnson, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Erik Johnson, Flickr, Licença Creative Commons

O post de hoje é o terceiro da série sobre alimentação infantil baseada nas ideias da terapeuta ocupacional Alisha Grogan. Alisha mantém o site Your Kid’s Table, com dicas preciosas para maximizar as chances de uma experiência bem-sucedida na hora da refeição.

Dica #3: Evite os lanchinhos a toda hora

Quem nunca lançou mão da estratégia de dar comida ao filho para mantê-lo quieto no carrinho, na cadeirinha do carro ou no supermercado? Acho que é difícil encontrar alguém que nunca tenha feito isso. O problema é quando essa prática vira rotina e a criança passa a beliscar constantemente fora de hora. Não é sempre possível dedicar um horário para as refeições, então beliscar com frequência muitas vezes acaba sendo uma opção mais atraente para muitos pais. Beliscar fora de hora também parece uma boa opção quando a hora da refeição em si torna-se estressante por algum motivo qualquer.

Em todos esses cenários, oferecer comida à criança fora do horário da refeição pode funcionar a curto prazo, mas atrapalha as coisas a longo prazo, fazendo com que a criança tenha dificuldade de estabelecer bons hábitos alimentares.

Leia mais →

dezembro 9, 2014

O que (não) fazer para seu filho comer bem – PARTE 2

Foto por Martin McDonald, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Martin McDonald, Flickr, Licença Creative Commons

O post de hoje é o segundo da série sobre alimentação infantil baseada nas ideias da terapeuta ocupacional Alisha Grogan. Alisha mantém o site Your Kid’s Table, com dicas preciosas para maximizar as chances de uma experiência bem-sucedida na hora da refeição.

Dica #2: Não desista do cadeirão cedo demais

Segundo Alisha, devemos evitar fazer a transição do cadeirão para uma cadeira normal ou uma mesinha de criança antes de 2 anos e meio. Convencer uma criança acostumada a um cadeirão convencional a ficar sentada em uma cadeira normal ou em uma mesinha é praticamente impossível, o que acaba afetando negativamente a refeição. O melhor é continuar com o cadeirão ou com um assento de elevação onde a criança possa ficar ‘presa’, oops, sentada com segurança. Caso a criança seja acostumada, desde o início da introdução alimentar, a sentar no cadeirão ou no assento de elevação, ela não conhecerá outra realidade e, portanto, dificilmente se recusará a comer sentada ali.

Leia mais →