junho 13, 2017

Quando o dilema da licença maternidade não existe!

Esta é a história de Tomás e sua família. Tomás tem 2 anos e é filho de Elisa e Henrique. Até completar 1 ano, o pequeno Tomás ficou sob os cuidados da mãe, que teve sua licença maternidade garantida por lei e pôde, assim, dar atenção a seu filho em um ano tão importante da vida dele.

Durante esse primeiro ano, Elisa contou com a ajuda de seus pais e dos avós paternos de Tomás. Elisa também contou com a assistência do grupo de mães de seu bairro. Foi a encontro de bebês, fez amizades, trocou experiência com outras mães.

Teve, de fato, uma rede de apoio para os primeiros meses da nova vida como mãe, quando, apesar de termos a companhia do bebê durante o dia todo, sentimo-nos muito solitárias.

Quando Tomás completou 1 ano, Elisa e Henrique o matricularam na creche cooperativa do bairro onde vivem. A creche, em funcionamento em caráter experimental, é parcialmente financiada pela prefeitura da cidade e cobra uma pequena mensalidade para cobrir uma parte das despesas. Mas o auxílio da prefeitura e as mensalidades não são suficientes.

O funcionamento da creche somente é viabilizado porque parte da mão de obra vem dos próprios pais dos alunos. Uma vez por semana, a mãe (ou o pai) de um aluno cumpre seu expediente na creche, auxiliando a professora no cuidado com as crianças. Os pequenos adoram. Ficam por lá somente durante a manhã e sempre têm a companhia do próprio pai, da própria mãe ou dos pais dos amiguinhos.

Quando não está na creche cooperativa, Tomás fica em casa com seu pai ou sua mãe, que se revezam para cuidar do filho.

Vocês devem estar se perguntando: como Elisa e Henrique conseguem conciliar os empregos, o trabalho na creche do filho e os cuidados com Tomás em casa? Elisa e Henrique trabalham somente seis horas por dia cada um. Ambos trabalham em uma empresa que decidira inovar alguns anos antes, reduzindo a carga horária de seus funcionários e contratando mais pessoal para dar início a um projeto piloto de partilha de postos de emprego. O gerente de projetos, por exemplo, deixou de gerenciar quatro projetos e passou a gerenciar somente dois. Os outros dois foram alocados ao gerente contratado para a partilha de trabalho.

É verdade que a redução da carga horária veio acompanhada de uma redução de salário. Elisa e Henrique ficaram um pouco apreensivos no início, mas hoje em dia acreditam que a redução de salário deu a eles mais qualidade de vida.

Cortaram vários supérfluos como TV a cabo, venderam os carros e passaram a se locomover de bicicleta ou ônibus e, quando necessário, de táxi, viram os gastos com supermercado despencarem, já que passaram a ter tempo para preparar comida fresca em vez de comprar os congelados industrializados, nada saudáveis e muito caros, dos quais dependiam no passado. E, consequentemente, deixaram de pagar uma pequena fortuna por uma creche tradicional em tempo integral, opção da qual não teriam como escapar caso ainda estivessem dedicando suas vidas quase que somente ao trabalho.

O mais importante, no entanto, é que Elisa e Henrique, mesmo mantendo um emprego bacana, criaram mais tempo livre em suas vidas e estão acompanhando de perto a vida do pequeno ser humano que eles trouxeram ao mundo juntos e que, ao contrário de muitos pequenos mamíferos, precisa de atenção e cuidado constantes durante vários anos para se desenvolver plenamente.

O texto acima é fictício e reconheço que bastante utópico. Decidi escrevê-lo como um exercício de reflexão, na tentativa de mostrar que existem potenciais alternativas à polarização ‘largar a carreira para cuidar dos filhos’ ou ‘voltar a trabalhar em tempo integral depois da licença maternidade e não poder acompanhar o crescimento dos filhos de perto’. Creches e pré-escolas cooperativas são realidade em alguns lugares do mundo (a cidade onde moro, Washington DC, é uma delas). A partilha de postos de trabalho já é adotada em algumas empresas. Somos todos vítimas de uma sociedade na qual se trabalha demais. Precisamos refletir e discutir a questão do equilíbrio entre trabalho e criação de filhos.

(texto escrito em 2014 e publicado originalmente no portal Maternarum)

agosto 4, 2014

Uma reflexão ecológica sobre o nascimento de um bebê e sobre o aleitamento materno

Meu filho mamando e sorrindo ao mesmo tempo. Crédito: Eco Maternidade

Meu filho mamando e sorrindo ao mesmo tempo. Crédito: Eco Maternidade

“Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer.” Michel Odent

Acho que dois dos assuntos mais discutidos na blogosfera materna brasileira são amamentação vs leite artificial e parto normal vs cesariana. Esses tópicos mexem com os ânimos de muita gente. Minha intenção com este post não é escrever mais um texto mostrando os benefícios do aleitamento materno nem do parto normal. O que eu pretendo fazer é escrever sobre o assunto levando em consideração, obviamente, o tema que orienta este blog. Em outras palavras, pretendo apresentar uma discussão ecológica sobre o nascimento de um bebê humano e sobre o aleitamento materno.

Todo mundo conhece pelo menos alguns dos motivos que levam uma mulher a optar por uma cesariana e/ou a usar o leite artificial para alimentar um bebê, não é?

Digamos que alguns desses motivos sejam ‘internos’, isto é, percepções e ideias que habitam no imaginário feminino e que outros motivos sejam ‘externos’, isto é, práticas e atitudes de outras pessoas, instituições ou empresas que influenciam a maneira como os bebês brasileiros nascem e são alimentados.

No caso da cesariana, alguns dos motivos ‘internos’ são o medo de sentir dor durante o parto normal, o receio de que o parto normal ‘alargue’ a vagina, a sensação de controle ao agendar a cirurgia, entre vários outros.

No que diz respeito à amamentação, apesar de a conscientização sobre os benefícios do leite materno estar aumentando, existe a percepção de que o leite materno é fraco e de que muitas mulheres não têm leite em quantidade suficiente, há preocupação com a aparência dos seios após o desmame e muita gente se sente desconfortável com a ideia de amamentar em público, seja fora de casa ou em casa na frente de pessoas com quem não se tem intimidade.

São vários os motivos ‘externos’ para a perpetuação de cesarianas desnecessárias no Brasil. Limitar-me-ei a mencionar somente um desses motivos, que me parece pouco explorado nas discussões sobre o assunto que já li. A meu ver, a inexistência, no setor privado, de grupos de obstetras que trabalhem se revezando em plantões é pelo menos parcialmente responsável pelos altíssimos índices de nascimentos por via cirúrgica no Brasil.

Nos EUA, por exemplo, onde as taxas de cesarianas são bem mais baixas, de maneira geral, cada gestante tem seu obstetra, que acompanha toda a gestação. Mas o parto em si é feito pelo obstetra do grupo que estiver de plantão no dia. O modelo tem desvantagens, é claro. Corre-se o risco de ter um médico desconhecido durante o parto, por exemplo. Mas o modelo traz a enorme vantagem de ter um médico qualificado à sua disposição no hospital, ganhando para estar ali de qualquer forma, ou seja, sem pressa para voltar ao consultório e ganhar mais dinheiro ou sem pressa para sair de férias ou viajar no feriado.

Como motivos ‘externos’ para os baixos índices de aleitamento materno, há pressão para a mulher voltar ao mercado de trabalho e não há muito incentivo para a amamentação na esfera pública (isto é, dificilmente se vê, em filmes ou novelas, alguma cena de uma mãe amamentando seu bebê, por exemplo, e muitas bonecas são vendidas com uma mamadeira como acessório). Além disso, o marketing da indústria de fórmulas beira a criminalidade (vide o último episódio envolvendo a Pais e Filhos).

Mesmo tendo conhecimento de todos os motivos acima e ainda de outros, me pergunto por que o nascimento por via cirúrgica e o leite artificial conseguiram tanto espaço na vida de tantos bebês. Ou seja, por que muitas mulheres e a sociedade de maneira geral deixaram de acreditar na capacidade fisiológica das fêmeas humanas de parir e amamentar seus filhos? Por que o leite artificial foi tão bem aceito pela sociedade? Por que eu, que ainda amamento meu filho de 1 ano e 7 meses, ouço comentários negativos da minha própria família?

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julho 28, 2014

Como assim? (sobre mamadeiras e papai noel)

Cartaz da Organização Mundial de Saúde sobre os benefícios do aleitamento materno. O leite artificial, contudo, não é o único potencial problema na alimentação de muitos bebês, pois, em sua administração, a parceria com a mamadeira potencializa os riscos de morbidade e de mortalidade infantil.

*Este é um guest post escrito pela professora do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio Cristine Nogueira Nunes*

Desde garota (eu tenho 55 anos), ouço meu pai dizer que Coca-Cola é um produto corrosivo, que serve pra limpar as sujeiras mais encrustadas. Imaginem o que ela não faz no estômago de vocês!, bradava ele. Mas a cada lançamento de cigarro, lá vinha ele trazendo um maço pra gente experimentar. É, isso mesmo. Na televisão verdadeiros atletas escalavam o Himalaia ou algo do gênero e, ao chegar ao topo, acendiam um cigarrinho pra comemorar.

Eu resisti muito a provar comida japonesa. Depois de algumas tentativas, descobri que o sabor mais prazeroso pra mim, na face da terra, é o do salmão cru. E estava bem, mas bem feliz mesmo com isso. Até ler o texto de Marisa Silveira sobre o salmão, dizendo que ele é de cativeiro, que toma antibióticos, que aquela cor linda é corante porque salmão assim não tem por essas bandas: aqui eles são cinza. Eu não sei o que aconteceu comigo, juro. O fato é que passei a ficar embrulhada a cada vez que comia um sashimi. Nada grave, mas um lance desconfortável, que me tirou completamente o prazer… Eu, sinceramente, preferia não ter sabido de nada disso. Viver protegida pela ignorância desses fatos era maravilhoso. Agora, ferrou…

Pensando bem, o que sabemos sobre os produtos industriais além daquilo que mais eloquente e insistentemente nos conta a publicidade?, aquela disseminada pela mídia mas também pelas fortíssimas influências da cultura que se edifica a partir dela, da mídia?

De repente -eu me sinto assim- é como se a gente se desse conta de que Papai Noel não existe, de que muitas das coisas nas quais acreditávamos, felizes, são na verdade construções feitas com tijolos que podem se desmanchar feito areia depois de uma simples pesquisa. Ou até com menos do que isso: um simples olhar crítico, tão comum às crianças, que pergunte o que é isso, por que isso é assim e não assado e pra que serve isso?

Quando minha filha nasceu, eu tinha 30 anos. O leite desceu fácil e era um grande prazer amamenta-la. Quando porém foi se aproximando o final da minha licença-maternidade, eu e minha mãe fizemos de tudo pra ela aceitar a mamadeira, claro. Só que não houve jeito: ela estranhava o bico, chorava até não poder mais, e quando finalmente aceitou o produto, era mamar e vomitar tudo logo depois. Passei pro leite de soja. Melhorou. Até que aos quase dois anos de idade ela nos disse: hoje tomarei minha última mamadeira! porque já sou grande!

O tempo passou, passou e passou.

Eu sou designer.

Ela fez cinco anos e eu pensei: já dá pra tentar um mestrado.

Fiz mestrado e, um tempão depois, fiz doutorado.

Foi nessa última fase que ouvi de um pesquisador da Fiocruz: você sabia que a mamadeira é um produto extremamente nocivo para as crianças?

Como assim!!!!!?????

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maio 7, 2014

Alimentando o bebê e cuidando do meio ambiente

Crédito: Eco Maternidade

Fileiras de latas de fórmula láctea. Qual é o impacto ambiental do leite artificial e da lata que o armazena? Crédito: Eco Maternidade

Que o leite materno é muito melhor para a saúde dos pequenos do que a fórmula láctea muita gente sabe. Mas você já parou para pensar no impacto ambiental das duas formas de alimentar um bebê? Eu não poderia dar continuidade à série de posts sobre alimentação infantil sem escrever sobre a relação entre o primeiro alimento da vida de um ser humano e o meio ambiente.

Uma diferença bem óbvia entre o leite materno e a fórmula láctea infantil vem do método de produção de cada um. Para ser produzido, o leite materno requer, no máximo, calorias extras ingeridas pela mãe. Do ponto de vista ambiental, isso significa mais recursos para a produção de mais alimentos.

A fórmula infantil, por sua vez, necessita de todo um processo de produção com uma pegada ambiental bem alta até chegar ao consumidor: produção da matéria-prima da fórmula em si (feita, normalmente, a partir do leite de vaca ou do leite de soja), processamento industrial para transformar em algo digerível por um bebê (adição de outros ingredientes, etc), acondicionamento em embalagens (que, por sua vez, também precisam de energia e matéria-prima para serem produzidas) e transporte (em várias etapas de produção: matéria-prima para embalagem, embalagem pronta mas ainda vazia, embalagem já com produto final e produto final até o consumidor).

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