setembro 4, 2014

Cheiro bom ou cheiro ruim?

Foto por Travis Swan, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Travis Swan, Flickr, Licença Creative Commons

Eu sempre tive alergia a perfumes e a outros cheiros fortes. Desde criança. Passei boa parte da minha vida achando que eu havia vindo ‘com defeito de fábrica’. Isto é, achava que era alérgica porque tinha tido o azar de nascer destinada a desenvolver a doença. Era como se a causa para minha alergia fosse interna ao meu corpo.

Já adulta, eu descobri que perfumes e fragrâncias em cosméticos e produtos de higiene pessoal são, hoje em dia, frequentemente sintéticos, derivados do petróleo, imitando fragrâncias naturais. Em outras palavras, apesar de as embalagens desses produtos mostrarem flores e frutas, remetendo à natureza, de ‘natural’ esses produtos não costumam conter praticamente nada.

É bem provável que a minha alergia seja pelo menos parcialmente causada pelos componentes sintéticos das fragrâncias. E, ainda pior, há cada vez mais evidências de que fragrâncias sintéticas causariam muitos outros problemas. E não seriam somente problemas agudos, mas também problemas de natureza crônica.

O termo ‘fragrância’ na lista de ingredientes de um cosmético representa, na verdade, uma complexa mistura de inúmeras substâncias químicas. Já faz tempo que ONGs internacionais apresentam relatórios sobre a precariedade dos testes de segurança feitos pela indústria de cosméticos. Há variação entre a legislação de diferentes países mas, de maneira geral, os estudos de segurança, de responsabilidade das próprias empresas, não são satisfatórios. A legislação brasileira não é das mais rigorosas.

Segundo os relatórios das ONGs, os testes que são feitos focam nas consequências mais imediatas da exposição a uma substância. Não são feitos estudos suficientes a respeito da exposição prolongada a um determinado componente. Também não são realizados testes a respeito do ‘coquetel’ de substâncias a que uma pessoa é exposta ao usar vários produtos quase que ao mesmo tempo (por exemplo, sabonete ou gel de banho, shampoo, condicionador, desodorante, creme hidratante, etc).

Além de alergias, dermatite e problemas respiratórios, isto é, problemas que costumam aparecer pouco tempo após o uso de um cosmético, há cada vez mais evidências sugerindo a ligação entre fragrâncias sintéticas e alterações hormonais.

Uma das substâncias que mais causam preocupação é a substância ftalatos. Usada para aumentar a durabilidade do cheiro de fragrâncias, a substância atrapalharia o funcionamento do sistema endócrino. Pesquisas indicam, por exemplo, que a substãncia ftalatos está associada a puberdade precoce em meninas, a redução de esperma em homens e a problemas reprodutivos em fetos do sexo masculino (quando a mãe é exposta à substância durante a gravidez).

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julho 28, 2014

Como assim? (sobre mamadeiras e papai noel)

Cartaz da Organização Mundial de Saúde sobre os benefícios do aleitamento materno. O leite artificial, contudo, não é o único potencial problema na alimentação de muitos bebês, pois, em sua administração, a parceria com a mamadeira potencializa os riscos de morbidade e de mortalidade infantil.

*Este é um guest post escrito pela professora do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio Cristine Nogueira Nunes*

Desde garota (eu tenho 55 anos), ouço meu pai dizer que Coca-Cola é um produto corrosivo, que serve pra limpar as sujeiras mais encrustadas. Imaginem o que ela não faz no estômago de vocês!, bradava ele. Mas a cada lançamento de cigarro, lá vinha ele trazendo um maço pra gente experimentar. É, isso mesmo. Na televisão verdadeiros atletas escalavam o Himalaia ou algo do gênero e, ao chegar ao topo, acendiam um cigarrinho pra comemorar.

Eu resisti muito a provar comida japonesa. Depois de algumas tentativas, descobri que o sabor mais prazeroso pra mim, na face da terra, é o do salmão cru. E estava bem, mas bem feliz mesmo com isso. Até ler o texto de Marisa Silveira sobre o salmão, dizendo que ele é de cativeiro, que toma antibióticos, que aquela cor linda é corante porque salmão assim não tem por essas bandas: aqui eles são cinza. Eu não sei o que aconteceu comigo, juro. O fato é que passei a ficar embrulhada a cada vez que comia um sashimi. Nada grave, mas um lance desconfortável, que me tirou completamente o prazer… Eu, sinceramente, preferia não ter sabido de nada disso. Viver protegida pela ignorância desses fatos era maravilhoso. Agora, ferrou…

Pensando bem, o que sabemos sobre os produtos industriais além daquilo que mais eloquente e insistentemente nos conta a publicidade?, aquela disseminada pela mídia mas também pelas fortíssimas influências da cultura que se edifica a partir dela, da mídia?

De repente -eu me sinto assim- é como se a gente se desse conta de que Papai Noel não existe, de que muitas das coisas nas quais acreditávamos, felizes, são na verdade construções feitas com tijolos que podem se desmanchar feito areia depois de uma simples pesquisa. Ou até com menos do que isso: um simples olhar crítico, tão comum às crianças, que pergunte o que é isso, por que isso é assim e não assado e pra que serve isso?

Quando minha filha nasceu, eu tinha 30 anos. O leite desceu fácil e era um grande prazer amamenta-la. Quando porém foi se aproximando o final da minha licença-maternidade, eu e minha mãe fizemos de tudo pra ela aceitar a mamadeira, claro. Só que não houve jeito: ela estranhava o bico, chorava até não poder mais, e quando finalmente aceitou o produto, era mamar e vomitar tudo logo depois. Passei pro leite de soja. Melhorou. Até que aos quase dois anos de idade ela nos disse: hoje tomarei minha última mamadeira! porque já sou grande!

O tempo passou, passou e passou.

Eu sou designer.

Ela fez cinco anos e eu pensei: já dá pra tentar um mestrado.

Fiz mestrado e, um tempão depois, fiz doutorado.

Foi nessa última fase que ouvi de um pesquisador da Fiocruz: você sabia que a mamadeira é um produto extremamente nocivo para as crianças?

Como assim!!!!!?????

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julho 15, 2014

Salmão com maquiagem?

Foto por Astacus, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Astacus, Flickr, Licença Creative Commons

Quando eu era criança, salmão era um peixe muito caro e relativamente difícil de ver nos menus dos restaurantes e nos supermercados da cidade. De uns anos para cá, seu preço reduziu consideravelmente e o peixe rosado passou a ser onipresente na cena gastronômica das grandes cidades. Hoje em dia, é facílimo encontrar salmão em restaurantes a la carte, em restaurantes a kilo e, obviamente, nos restaurantes japoneses que se multiplicaram pelos centros urbanos no Brasil.

Vocês já pararam para pensar como isso aconteceu? Por que será que o salmão se transformou em um peixe muito mais acessível do que ele era até os anos 90? Sendo um peixe de águas frias, o salmão não é encontrado na costa brasileira. De onde vem, então, o peixe que deixou de ser exclusivo do prato dos mais privilegiados economicamente e virou peixe do dia-a-dia, amplamente recomendado por especialistas por seus supostos benefícios à saúde, inclusive a grávidas e a crianças pequenas?

O habitat natural do salmão é o Atlântico Norte e o Pacífico Norte. Contudo, as reservas naturais do peixe rosado tornaram-se escassas há muitos anos, devido à intensa exploração da espécie para consumo humano, à construção de usinas hidrelétricas em rios que abrigam o peixe e à forte poluição de rios e mares dos quais o salmão depende (o peixe passa a maior parte da vida nos mares, mas se reproduz nos rios). Como, então, a disponibilidade do salmão para o consumidor (no Brasil e no resto do mundo, diga-se de passagem) continua aumentando de modo considerável se as reservas naturais do peixe encontram-se reduzidas?

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julho 3, 2014

O desagradável problema das fraldas biodegradáveis

Foto por Beth Darbyshire, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Beth Darbyshire, Flickr, Licença Creative Commons

A fralda descartável é uma invenção relativamente recente da humanidade. Tão recente que as primeiras fraldas a serem comercializadas, há cerca de 40 anos, continuam no mesmo lugar onde foram parar após terem sido descartadas pelos pais de bebês da década de 70. Sim, foi isso mesmo que você leu. Se você tem idade para, quando bebê, ter usado fraldas descartáveis, saiba que elas ainda existem.

Feitas majoritariamente de plástico (isto é, petróleo) e celulose (isto é, árvores) e branqueadas com o uso de cloro, as fraldas convencionais têm uma cadeia de produção altamente poluente e demoram MUITO tempo para se decompor. De acordo com o Serviço de Parques Nacionais dos EUA, uma fralda descartável convencional leva cerca de 450 anos para se decompor.

Considerando a quantidade de fraldas usadas por um bebê até a idade em que o desfralde costuma acontecer (um estudo da National Geographic estimou que sejam, em média, 3.796 fraldas), não dá para negar que um bebê produz muito lixo em forma de fralda.

Diante disso, algumas empresas têm investido em fraldas mais ecológicas, sem o uso de cloro, sem fragrâncias sintéticas e com celulose certificada pelo FSC (Forest Stewardship Council, organização sem fins lucrativos que promove o manejo sustentável de florestas), reduzindo um pouco o impacto ambiental associado ao processo de produção das fraldas. Algumas marcas têm investido ainda na produção de fraldas feitas a partir de materiais biodegradáveis, como o bioplástico de amido de milho, por exemplo, na tentativa de resolver o problema do descarte. Essas empresas têm investido, também, bastante dinheiro no marketing de seus produtos, focando, obviamente, em seus benefícios ecológicos.

Que maravilha, certo? Infelizmente, a história não é tão simples assim. Algumas empresas se “esquecem” de explicar, no material de divulgação, que as fraldas não são biodegradáveis em aterros sanitários, destino final da maioria delas. Não é que as fraldas não sejam biodegradáveis. Elas são. Mas precisam estar no ambiente adequado para que a decomposição aconteça de forma rápida. E aterros sanitários não oferecem esse ambiente, pois não há oxigênio e umidade suficientes. De que adianta descartar a fralda biodegradável junto com o lixo comum, dentro de um saco plástico convencional, para, literalmente, enterrá-la no aterro sanitário?

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junho 26, 2014

Segunda mão – Por que não?

Caixa de envio de roupas da loja de segunda mão online Thred Up. Crédito: Eco Maternidade

Caixa de envio de roupas da loja de segunda mão online Thred Up. Crédito: Eco Maternidade

Muitas das roupas que o meu filho usa foram compradas de segunda mão, na loja online Thred Up, que tem sede em San Francisco, CA. Praticamente tudo que já compramos na Thred Up chega aqui em casa com o aspecto de novo! Além disso, pagamos uma fração do preço cobrado pelas lojas convencionais por roupas novas.

Todo mundo sabe que, de maneira geral, compra-se muito mais do que uma criança pequena realmente precisa e que muita coisa nem chega a ser usada. E, mesmo as coisas que são efetivamente usadas, o são por pouco tempo, já que criança cresce super rápido. Por que comprar roupas de segunda mão não é um hábito comum para muita gente? Algumas ideias me vêm à cabeça:

  • Seria uma resistência à possível falta de higiene relacionada ao ato de usar coisas previamente usadas por desconhecidos?
  • Seria reflexo de uma cultura que associa o uso de itens de segunda mão a doações (que, por sua vez, são frequentemente intermediadas pela igreja católica ou então feitas diretamente à camada da sociedade que presta serviços domésticos)?
  • Seria uma crença cultural de que comprar tudo novinho e combinando é sinônimo de demonstração de amor ao filho?

O que vocês acham? Existe realmente uma resistência cultural em relação à compra de artigos previamente usados por desconhecidos?

Prefiro pensar que comprar artigos de segunda mão, na verdade, é um ato de demonstração de amor a nossos filhos, e não o contrário, como levantei acima. Afinal, reduzir o consumo de itens novos, que demandam energia e matéria-prima para serem produzidos, significa deixar um planeta mais limpo e saudável para as próximas gerações.

Semelhante à loja online Thred Up, onde compro roupas para o meu filho, existe a Ficou Pequeno no Brasil. Que tal olhar primeiro o site da Ficou Pequeno antes de ir olhar a vitrine da loja física no shopping quando seu filho precisar de uma roupa ‘nova’?

junho 10, 2014

O carrinho do bebê e o meio ambiente

Foto por Jez Arnold, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Jez Arnold, Flickr, Licença Creative Commons

Carrinhos de bebê enormes e caros costumam ser muito cobiçados pelo aspecto estético, pela facilidade de manobrá-los e pelo conforto que apresentam ao bebê. Isso tudo pode ser verdade.

Mas o super carrinho logo vira um trambolho. Costumam ser difíceis de fechar, são pesados e grandes demais para a mala de um carro de pequeno ou médio porte.

Já perdi a conta de quantas vezes vi uma família que comprara um super carrinho aposentá-lo e passar a usar um carrinho guarda-chuva quando o bebê cresce um pouco.

Agora tentem imaginar o impacto ambiental da situação descrita acima? Quantos super carrinhos são construídos para serem aposentados depois de um breve período de uso?

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maio 28, 2014

Brincando com o algodão

Cestinha de frutas de algodão orgânico. Servem de mordedor para bebês e para brincar de faz-de-conta quando a criança cresce. Crédito: Eco Maternidade

Já falei aqui sobre alguns problemas relacionados à grande quantidade de brinquedos de plástico existente atualmente. Comentei sobre a produção dos brinquedos e sobre os potenciais problemas que o contato frequente com brinquedos de plástico pode causar, principalmente no caso de bebês, que ainda colocam tudo que alcançam na boca.

Hoje vou falar um pouco sobre uma das alternativas aos brinquedos de plástico: os brinquedos feitos a partir de algodão.

No fundo, a opção mais sustentável na hora de escolher um brinquedo para o seu filho é optar por brinquedos de segunda mão ou então participar de algum esquema de aluguel de brinquedos, novidade que vem surgindo no mercado. O processo de produção de qualquer brinquedo, mesmo os mais ecológicos, requer energia e matéria-prima.

Além de ser melhor para o meio ambiente, comprar um brinquedo de segunda mão ou alugar um brinquedo é também muito melhor para o bolso. Afinal, crianças crescem rapidamente e a vida útil de um brinquedo nas mãos de uma criança é bem curta.

A segunda melhor opção do ponto de vista ambiental é limitar a quantidade de brinquedos e adquirir produtos feitos com matéria-prima natural e renovável, como é o caso do algodão.

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maio 20, 2014

Os testes de segurança (ou a falta deles) em produtos infantis

Fotos por Alicia Voorhies, Flickr, Licença Creative Commons

Fotos por Alicia Voorhies, Flickr, Licença Creative Commons

No texto sobre brinquedos de plástico, falei sobre o caso da substância Bisfenol A (BPA), banida recentemente no Canadá, nos EUA, na União Europeia e no Brasil na fabricação de mamadeiras para bebês. Há cada vez mais evidências de que o BPA atrapalha o funcionamento do sistema endócrino, o sistema que regula os hormônios no corpo humano.

Segundo pesquisas, o BPA imita a ação do estrogênio, o hormônio que tem papel chave no nosso organismo, do crescimento ósseo e ovulação à função cardíaca. Níveis baixos ou níveis elevados de estrogênio, especialmente no útero ou na primeira infância, podem alterar o desenvolvimento do cérebro e de outros órgãos. Em outras palavras, é como se o BPA ‘reprogramasse’ nossas células, contribuindo para o desenvolvimento de doenças.

Se o BPA é tóxico a ponto de os governos acima o banirem, por que a substância foi usada pela indústria por tanto tempo antes da proibição? Por que as agências governamentais responsáveis pela saúde pública não conduziram testes extensivos antes de as mamadeiras de plástico começarem a ser comercializadas?

Infelizmente, casos assim são recorrentes. Nossa sociedade se preocupa muito com potenciais problemas agudos a que crianças pequenas podem ser submetidas, mas os potenciais problemas crônicos que a exposição a certos objetos causa nas crianças são muitas vezes ignorados.

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maio 7, 2014

Alimentando o bebê e cuidando do meio ambiente

Crédito: Eco Maternidade

Fileiras de latas de fórmula láctea. Qual é o impacto ambiental do leite artificial e da lata que o armazena? Crédito: Eco Maternidade

Que o leite materno é muito melhor para a saúde dos pequenos do que a fórmula láctea muita gente sabe. Mas você já parou para pensar no impacto ambiental das duas formas de alimentar um bebê? Eu não poderia dar continuidade à série de posts sobre alimentação infantil sem escrever sobre a relação entre o primeiro alimento da vida de um ser humano e o meio ambiente.

Uma diferença bem óbvia entre o leite materno e a fórmula láctea infantil vem do método de produção de cada um. Para ser produzido, o leite materno requer, no máximo, calorias extras ingeridas pela mãe. Do ponto de vista ambiental, isso significa mais recursos para a produção de mais alimentos.

A fórmula infantil, por sua vez, necessita de todo um processo de produção com uma pegada ambiental bem alta até chegar ao consumidor: produção da matéria-prima da fórmula em si (feita, normalmente, a partir do leite de vaca ou do leite de soja), processamento industrial para transformar em algo digerível por um bebê (adição de outros ingredientes, etc), acondicionamento em embalagens (que, por sua vez, também precisam de energia e matéria-prima para serem produzidas) e transporte (em várias etapas de produção: matéria-prima para embalagem, embalagem pronta mas ainda vazia, embalagem já com produto final e produto final até o consumidor).

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