Foto por Travis Swan, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Travis Swan, Flickr, Licença Creative Commons

Eu sempre tive alergia a perfumes e a outros cheiros fortes. Desde criança. Passei boa parte da minha vida achando que eu havia vindo ‘com defeito de fábrica’. Isto é, achava que era alérgica porque tinha tido o azar de nascer destinada a desenvolver a doença. Era como se a causa para minha alergia fosse interna ao meu corpo.

Já adulta, eu descobri que perfumes e fragrâncias em cosméticos e produtos de higiene pessoal são, hoje em dia, frequentemente sintéticos, derivados do petróleo, imitando fragrâncias naturais. Em outras palavras, apesar de as embalagens desses produtos mostrarem flores e frutas, remetendo à natureza, de ‘natural’ esses produtos não costumam conter praticamente nada.

É bem provável que a minha alergia seja pelo menos parcialmente causada pelos componentes sintéticos das fragrâncias. E, ainda pior, há cada vez mais evidências de que fragrâncias sintéticas causariam muitos outros problemas. E não seriam somente problemas agudos, mas também problemas de natureza crônica.

O termo ‘fragrância’ na lista de ingredientes de um cosmético representa, na verdade, uma complexa mistura de inúmeras substâncias químicas. Já faz tempo que ONGs internacionais apresentam relatórios sobre a precariedade dos testes de segurança feitos pela indústria de cosméticos. Há variação entre a legislação de diferentes países mas, de maneira geral, os estudos de segurança, de responsabilidade das próprias empresas, não são satisfatórios. A legislação brasileira não é das mais rigorosas.

Segundo os relatórios das ONGs, os testes que são feitos focam nas consequências mais imediatas da exposição a uma substância. Não são feitos estudos suficientes a respeito da exposição prolongada a um determinado componente. Também não são realizados testes a respeito do ‘coquetel’ de substâncias a que uma pessoa é exposta ao usar vários produtos quase que ao mesmo tempo (por exemplo, sabonete ou gel de banho, shampoo, condicionador, desodorante, creme hidratante, etc).

Além de alergias, dermatite e problemas respiratórios, isto é, problemas que costumam aparecer pouco tempo após o uso de um cosmético, há cada vez mais evidências sugerindo a ligação entre fragrâncias sintéticas e alterações hormonais.

Uma das substâncias que mais causam preocupação é a substância ftalatos. Usada para aumentar a durabilidade do cheiro de fragrâncias, a substância atrapalharia o funcionamento do sistema endócrino. Pesquisas indicam, por exemplo, que a substãncia ftalatos está associada a puberdade precoce em meninas, a redução de esperma em homens e a problemas reprodutivos em fetos do sexo masculino (quando a mãe é exposta à substância durante a gravidez).

Se a toxicidade das fragrâncias sintéticas é tão conhecida por pesquisadores, por que as empresas continuam comercializando seus produtos sem muita vigilância? Acho que a resposta é óbvia: a indústria de cosméticos e produtos de higiene pessoal movimenta muita grana. Só em 2012, a indústria brasileira faturou R$34 bilhões líquidos.

A indústria poderia, ao menos, poupar os produtos infantis, devido à vulnerabilidade dos organismos de crianças. Mas isso está longe de acontecer. Uma rápida pesquisa nas prateleiras das farmácias mostra que mesmo os produtos destinados ao público infantil têm fragrâncias sintéticas em sua composição.

Fragrância natural é muito mais cara do que a sintética. Portanto, os fabricantes que usam a natural costumam fazer questão de deixar explícito na embalagem quando um óleo essencial de lavanda, por exemplo, foi usado em vez da versão sintética feita em laboratório.

Muitos itens entram na categoria ‘produtos infantis’ que contêm fragrância sintética: shampoo (mesmo aquele famoso que diz que não causa lágrimas), sabonete, creme para brotoejas, sabonete líquido para lavar roupa de bebês, paninhos umedecidos, fraldas, etc. Ou seja, pais e mães acreditam que estão cuidando de seus filhos da melhor maneira, deixando-os limpinhos e cheirosinhos, lavando suas roupas com sabão diferente do resto da família, mas estão, constantemente, expondo-os a produtos potencialmente tóxicos.

Não é somente do ponto de vista da saúde do ser humano que as fragrâncias sintéticas são nocivas. Do ponto de vista ambiental, são altamente poluentes. Quando nos lavamos com um sabonete com perfume sintético, por exemplo, as substâncias que compôem as fragrâncias acabam descendo pelo ralo junto com a água. Alguns de seus componentes alcançam as hidrovias e se acumulam no tecido adiposo de organismos aquáticos, contaminando os peixes, isto é, a cadeia alimentar da qual fazemos parte.

O que nós, consumidores, podemos fazer para minimizar nosso contato com fragrâncias sintéticas? Ou, pelo menos, minimizar o contato de nossos filhos, principalmente os bebês ainda em formação?

O ideal é tomar duas atitudes: diminuir a quantidade de produtos de higiene pessoal, continuando a usar somente aqueles de que sua família realmente precisa e, quando necessário, comprar produtos sem fragrância ou com fragrâncias naturais, obtidas através de óleos essenciais. Isto é, cosméticos de fabricantes preocupados com o que colocam em seus produtos.

No Brasil, até onde eu sei, são poucas as marcas que oferecem produtos de higiene pessoal com fragrâncias naturais e nem todas são fáceis de encontrar. As marcas nacionais BioEssência, Pura Chuva, Cativa Natureza, Vyvedas e marca alemã Weleda são das poucas que oferecem produtos com fragrâncias naturais. A loja virtual Beleza Orgânica é uma ótima opção para quem não encontra produtos de higiene pessoal sem fragrância sintética em lojas físicas perto de casa. Para lavagem de roupas, há a marca Biowash.

Especialistas afirmam que a fragrância é um dos itens que mais devemos nos esforçar para evitar, em função da gravidade dos danos que ela pode causar (à saúde humana e ao meio ambiente). Porém, infelizmente, fragrância sintética é somente um dos problemas presentes nos cosméticos convencionais. Em breve, continuarei a falar de cosméticos e dos problemas associados ao uso das versões convencionais.

OBS: para escrever este post, eu entrei em contato com algumas empresas brasileiras com a intenção de confirmar que seus produtos contêm fragrância sintética. As respostas das empresas que contactei foram todas positivas.

REFERÊNCIAS E MAIS INFORMAÇÃO:

http://carodinheiro.blogfolha.uol.com.br/2013/05/29/cosmeticos-no-brasil/

http://www.rodalenews.com/perfumes-and-fragrances?page=0,1

http://www.huffingtonpost.com/hillary-peterson/natural-beauty-products_b_1367340.html

http://safecosmetics.org/downloads/NotSoSexy_report_May2010.pdf

http://www.huffingtonpost.com/samuel-s-epstein/toxic-chemicals_b_625648.html

http://safecosmetics.org/article.php?id=222

http://www.treehugger.com/style/shocking-report-reveals-secret-chemicals-in-popular-perfumes-is-yours-one-of-them.html

http://www.theatlantic.com/features/archive/2014/03/the-toxins-that-threaten-our-brains/284466/

http://well.blogs.nytimes.com/2014/03/21/a-threat-to-male-fertility/?_php=true&_type=blogs&_php=true&_type=blogs&_r=1&