Cartaz da Organização Mundial de Saúde sobre os benefícios do aleitamento materno. O leite artificial, contudo, não é o único potencial problema na alimentação de muitos bebês, pois, em sua administração, a parceria com a mamadeira potencializa os riscos de morbidade e de mortalidade infantil.

*Este é um guest post escrito pela professora do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio Cristine Nogueira Nunes*

Desde garota (eu tenho 55 anos), ouço meu pai dizer que Coca-Cola é um produto corrosivo, que serve pra limpar as sujeiras mais encrustadas. Imaginem o que ela não faz no estômago de vocês!, bradava ele. Mas a cada lançamento de cigarro, lá vinha ele trazendo um maço pra gente experimentar. É, isso mesmo. Na televisão verdadeiros atletas escalavam o Himalaia ou algo do gênero e, ao chegar ao topo, acendiam um cigarrinho pra comemorar.

Eu resisti muito a provar comida japonesa. Depois de algumas tentativas, descobri que o sabor mais prazeroso pra mim, na face da terra, é o do salmão cru. E estava bem, mas bem feliz mesmo com isso. Até ler o texto de Marisa Silveira sobre o salmão, dizendo que ele é de cativeiro, que toma antibióticos, que aquela cor linda é corante porque salmão assim não tem por essas bandas: aqui eles são cinza. Eu não sei o que aconteceu comigo, juro. O fato é que passei a ficar embrulhada a cada vez que comia um sashimi. Nada grave, mas um lance desconfortável, que me tirou completamente o prazer… Eu, sinceramente, preferia não ter sabido de nada disso. Viver protegida pela ignorância desses fatos era maravilhoso. Agora, ferrou…

Pensando bem, o que sabemos sobre os produtos industriais além daquilo que mais eloquente e insistentemente nos conta a publicidade?, aquela disseminada pela mídia mas também pelas fortíssimas influências da cultura que se edifica a partir dela, da mídia?

De repente -eu me sinto assim- é como se a gente se desse conta de que Papai Noel não existe, de que muitas das coisas nas quais acreditávamos, felizes, são na verdade construções feitas com tijolos que podem se desmanchar feito areia depois de uma simples pesquisa. Ou até com menos do que isso: um simples olhar crítico, tão comum às crianças, que pergunte o que é isso, por que isso é assim e não assado e pra que serve isso?

Quando minha filha nasceu, eu tinha 30 anos. O leite desceu fácil e era um grande prazer amamenta-la. Quando porém foi se aproximando o final da minha licença-maternidade, eu e minha mãe fizemos de tudo pra ela aceitar a mamadeira, claro. Só que não houve jeito: ela estranhava o bico, chorava até não poder mais, e quando finalmente aceitou o produto, era mamar e vomitar tudo logo depois. Passei pro leite de soja. Melhorou. Até que aos quase dois anos de idade ela nos disse: hoje tomarei minha última mamadeira! porque já sou grande!

O tempo passou, passou e passou.

Eu sou designer.

Ela fez cinco anos e eu pensei: já dá pra tentar um mestrado.

Fiz mestrado e, um tempão depois, fiz doutorado.

Foi nessa última fase que ouvi de um pesquisador da Fiocruz: você sabia que a mamadeira é um produto extremamente nocivo para as crianças?

Como assim!!!!!?????

E ele foi me explicando que as roscas que separam as muitas partes do produto constituem ambiente ideal para a proliferação das bactérias do leite; que o bico da mamadeira exige que o bebê contrarie o movimento para o qual foi dotado pela natureza para sorver o líquido, o que acarreta distorções em sua arcada, respiração, fala, postura…. e um monte de outras notícias que me tiraram do chão.

As várias partes da mamadeira. Crédito: Fernando Carvalho

Céus, como é que eu nunca parei pra pensar nisso? Como é que eu, sendo designer, nunca atentei para o fato de que as bactérias existem, de que a água é um problema mundial, de que a mamadeira é um produto que mente pra gente?

O fato é que muitos produtos mentem, e a gente acredita….

O assunto virou objeto de minha tese de doutorado sobre a estreita ligação entre o design e as correntezas econômicas. Usei como epígrafe um trecho da música de Taiguara, “Piano e viola”, que diz assim:

Sorriso bom, só de dentro.

Pra ser feliz por mentira

Melhor que eu chore com fé.

Minha pesquisa toda foi muito difícil. Na cabeça das pessoas, design é um troço que tem glamour, e confesso que isso foi uma das coisas que me atraiu para essa profissão que tanto amo. Só que me atraiu principalmente o fato de que, com design, se pode melhorar a vida das pessoas. E isso depende, fundamentalmente, de se olhar pra situação onde se pretende interferir e perguntar, como uma criança: por que é assim, e não assado? Daí me dei conta de que, ao dar mamadeira pra minha filha, eu me esqueci de ser designer e fui uma pessoa crédula daquilo que a cultura me dizia. Então passei anos estudando (um estudo sofrido, sem glamour algum) e percebendo que aquilo que nos dizem em grande parte nos é meramente vendido.

Uma vez, em uma das apresentações que faço sobre os problemas da mamadeira, uma mulher pediu o microfone, ao final, pra me perguntar: Mas como eu faço agora? Dizem que é bacana, as revistas e programas mostram que é tendência colocar silicone nos seios e que a mamadeira pode solucionar a questão da alimentação de nossos filhos? Em quem acreditar?

Hoje em dia, quando vejo adultos dando mamadeira a bebês, eu vejo que essa ilusão de segurança consegue ser muito mais grave do que o anúncio do Himalaia aí de cima do post. Os índices de morbidade e mortalidade infantil provocados pelo produto são assustadores; os bebês ainda não chegaram à idade de perguntar o por que de tudo aos seus pais; e os fabricantes de leites artificiais (tantas vezes donos de marcas de mamadeiras) fazem os anúncios mais fofos e adoráveis do mundo.

Pra finalizar, não poderia deixar o assunto assim, solto, sem maiores explicações. Por isso disponibilizo aqui um artigo capaz de fundamentar essas palavras.

É mesmo uma pena, mas Papai Noel não existe …

Cristine Nogueira Nunes é professora do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio, autora do livro ‘Amamentação e o desdesign da mamadeira’ (Editora Reflexão/Editora PUC-Rio) e do blog Mamadeira Nunca Mais.