Foto por Diego Sevilla Ruiz, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Diego Sevilla Ruiz, Flickr, Licença Creative Commons

Há alguns meses, me deparei, em uma andança pela Internet, com a notícia de que uma multinacional de laticínios havia lançado uma marca de leite em pó para crianças a partir de 1 ano. Pelo que entendi, estão querendo ganhar mais espaço no mercado de alimentos infantis no país. Como parte da estratégia de marketing, lançaram, também, uma ‘escolinha de nutrição’ como aplicativo da página da empresa no Facebook. A ideia é oferecer aulas sobre alimentação de crianças pequenas para pais e mães.

Demorei um tempão para digerir o que tinha lido na tal página, tanto o que tinha sido escrito pelo departamento de marketing da empresa quanto os comentários positivos deixados por pais e mães fãs da marca. Não conseguia parar de pensar em quão triste é a constatação de que adultos aceitam a orientação de uma multinacional para alimentar seus bebês.

Após um tempo, me convenci de que uma situação como a descrita acima somente é possível porque, na verdade, há muitos adultos meio perdidos em relação à própria alimentação. Em outras palavras, há muitos adultos que não têm referências positivas que os ajudem na hora das compras e na cozinha, não sabem ler rótulos, desconhecem os prejuízos associados aos alimentos industrializados e não têm nocões básicas de nutrição e de culinária, seja por falta de interesse pelo assunto, por falta de tempo ou por acreditar que cozinhar bem é algo complicado e inatingível.

Se esse é o caso de muitos adultos em relação à própria alimentação, o que acontece quando eles se tornam pais? O sucesso da campanha da multinacional que descrevo acima sugere que muitos pais estão perdidos quando se vêem responsáveis pela alimentação dos filhos.

Fico imaginando como estaria sendo a alimentação do meu filho caso eu não tivesse tomado a iniciativa de aprender a cozinhar quando saí da casa dos meus pais há mais de 10 anos e não tivesse cultivado e ampliado meu interesse pelo tema alimentação desde então. Muito provavelmente, estaria me sentindo insegura e acabaria oferecendo a ele, com a melhor das intenções, algum produto alimentício voltado para o público infantil, sem saber que produtos alimentícios frequentemente têm baixíssimo valor nutritivo, contêm açúcar ou sódio em excesso, carboidratos refinados, conservantes e espessantes, além de serem desprovidos de fibras.

Produtos alimentícios inventados pela indústria italiana. Crédito: Eco Maternidade

Produtos alimentícios inventados pela indústria italiana. Crédito: Eco Maternidade

O episódio da campanha da multinacional me fez concluir que não adianta tentarmos resolver o problema da alimentação infantil sem tentar resolver também a questão da má alimentação de adultos. Pais e mães com conhecimento sólido sobre alimentação não confiam nos conselhos da indústria alimentícia.

A primeira atitude que devemos tomar para que nossos filhos se alimentem bem é olhar para a nossa própria alimentação. Se a sua dieta é repleta de produtos industrializados, de baixo valor nutritivo e altos índices de sódio, e exagerada na quantidade de caboidratos refinados, isto é, repleta de produtos inventados pela indústria alimentícia para fazerem parte do dia-a-dia de muita gente, a dieta de seu filho provavelmente será composta do que a indústria inventou com o mercado infantil em mente, isto é, biscoitos e salgadinhos variados (aqui incluo o biscoito de polvilho e o biscoito maizena, que não foram inventados para o público infantil, mas são consumidos por muitos bebês e crianças diariamente apesar do sódio e do açúcar), iogurte açucarado, bebidas variadas, bisnaguinhas com gordura hidrogenada, queijo processado, etc.

Caso seus filhos comam mal e você tenha se identificado com os parágrafos acima, convido-o a refletir sobre a sua própria alimentação. Procure rever seus hábitos e tente mudar sua atitude em relação às refeições e ao ato de cozinhar. Seus filhos provavelmente passarão a se alimentar melhor.

Se você não sabe por onde começar, sugiro que faça uma visita à feira (de preferência orgânica) de sua cidade, tente cozinhar mais, pesquise sobre o assunto para entender como funciona a indústria alimentícia (o Canal Do Campo à Mesa é excelente fonte de informação) e tente encontrar blogs de culinária com receitas que te agradem. Se você acha que precisa de um empurrãozinho a mais, contrate um profissional para lhe ajudar. A Mônica Souza, da Cozinha Consciente, pode ajudá-lo a promover uma revolução em sua cozinha (e em sua vida!)!