A revolução pessoal pela qual passei há alguns anos, que me fez tomar consciência da minha pegada ambiental e passar a enxergar o mundo natural de maneira diferente, teve início, na verdade, na cozinha.

Nunca fui de questionar muito meus hábitos alimentares. Como boa parte da classe média alta no Brasil, passei a minha infância e juventude sem ter que me preocupar com idas ao supermercado ou com o trabalho na cozinha. Quase como um ‘milagre’, as refeições chegavam à mesa, sem esforço algum da minha parte.

O ‘milagre’, no entanto, parou de acontecer quando fui morar em Londres, como estudante de doutorado, e me vi, pela primeira vez, em uma situação em que tinha que comprar e cozinhar a minha própria comida. Cheguei à conclusão de que tinha duas opções: viver à base de pizzas congeladas e saladas pré-lavadas ou aprender a cozinhar.

Decidi que aprenderia a cozinhar!

Nos primeiros meses, comprava somente produtos muito baratos, porém de qualidade duvidosa, já que vivia de bolsa estudantil e temia não ter dinheiro suficiente até o fim do mês. Afinal, pela primeira vez na vida tinha que pagar aluguel e outras contas. Aos poucos, fui tomando gosto pela cozinha. Dividia um apartamento com uma americana que cozinhava muito e bem, e isso acabou me ajudando.

Depois de alguns meses em Londres, conheci um italiano e começamos a namorar. Nosso relacionamento se fortaleceu rapidamente e a cultura gastronômica do namorado, que depois virou marido, e de sua família (comida quase sempre fresca, inexistência de fornos de micro-ondas nas casas, etc) passou a me influenciar muito.

Gradualmente, passei a me interessar por produtos de melhor qualidade e também por alimentos mais saudáveis. Cozinhar e comer bem passaram a ser uma das minhas prioridades. Sendo Londres a metrópole que é, seus supermercados costumam oferecer ingredientes étnicos de várias partes do mundo. Encantava-me com a possibilidade de conhecer sobre a culinária de outros países.

No entanto, preocupava-me somente com a qualidade dos produtos e com a possibilidade de cozinhar coisas diferentes, sem me interessar pela origem ou por quem plantava ou produzia o que eu comprava.

Aos poucos, meu interesse por alimentação evoluiu e passei a me interessar também por outras questões relacionadas a comida, como aspectos sociais e ambientais do atual sistema de produção de alimentos e alternativas mais favoráveis a produtores e ao meio-ambiente.

Passei a devorar livros e documentários sobre o assunto. Supermercados, para mim, passaram a servir para a compra de alimentos não-perecíveis, como nozes, grãos e alguns outros poucos itens, pois habituei-me a comprar vegetais, frutas, carnes, laticínios e ovos quase que somente em mercados de produtores locais, seguindo estritamente as estações do ano. A prática se consolidou ao longo dos anos.

Hoje em dia, acredito que poucas coisas em nossas vidas estão tão relacionadas ao meio ambiente quanto a maneira como nos alimentamos.

Várias questões são relevantes: deixar que as estações do ano nos ajudem a definir o que será consumido (em vez de lançar mão de agrotóxicos e comer as mesmas coisas o ano inteiro), ter consciência da distância que um alimento viajou antes de chegar ao meu prato (isso inclui o combustível gasto para o alimento chegar aos pontos de venda e o combustível, no caso do uso de automóvel, gasto para eu ir comprar), prestar atenção no tipo de embalagem usada para armazenar o alimento (em termos de matéria-prima, energia gasta durante o processo de produção do pacote e descarte após consumo), entre muitas outras.

Quando decidi ser mãe, sabia que teria alguns desafios interessantes pela frente no que diz respeito à alimentação do meu filho. Acredito que uma boa educação alimentar, que englobe o processo amplamente e que vá muito além da questão do valor nutritivo, seja fundamental na criação de nossos mini-humanos. Tendo em vista a estreita relação entre alimentação e meio ambiente, pretendo escrever muitos posts sobre alimentação infantil e educação alimentar. Estou prevendo textos contando um pouco de como tem sido a experiência de alimentar meu filho até o momento, textos contendo reflexões e questionamentos sobre o tema e parcerias com profissionais da área.