Foto por Michel Bish, Flickr, Licença Creative Commons

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Sabe aquele requeijão que você usa no café da manhã? Ele chega à sua casa após um longo processo de produção. O pote onde o requeijão é vendido é produzido numa fábrica de produtos de plástico ou de vidro e transportado até a fábrica de laticínios. Depois de pronto, o requeijão, já dentro do pote, vai para um centro de distribuição. De lá, parte para o supermercado. O transporte tem de ser feito dentro de um caminhão refrigerado e, no supermercado, o requeijão tem que ficar na prateleira refrigerada. Toda essa climatização gasta bastante eletricidade.

Já o pão nosso de cada dia tem grandes chances de ter sido feito com trigo produzido lá na Argentina. Várias outras coisas que consumimos vêm de longe. O transporte de alimentos, seja ele marítimo ou aéreo, gasta combustível, mas com esse valor energético quase ninguém se importa.

Aquela caxinha longa vida que armazena as bebidas disponíveis na prateleira dos supermercados é composta por seis camadas, incluindo camadas de plástico, uma de papel e uma camada de alumínio. Ou seja, só a cadeia de produção da embalagem é de uma complexidade e custo ambiental enormes. A produção de bauxita (matéria-prima essencial para a produção de alumínio), por exemplo, demanda muita, mas muita, energia elétrica.

Existem poucas coisas na vida do ser humano mais cruciais do que se alimentar. E, como os exemplos acima sugerem, poucas coisas estão tão relacionadas ao meio ambiente quanto o modo como nos alimentamos.

Diante disso, será que, como sociedade, damos atenção o suficiente à educação alimentar de crianças e adolescentes?

Me pergunto se, ao insistir que nossos filhos, criados em florestas de concreto, comam frutas e verduras em abundância, não estamos pedindo demais. Como esperar que uma criança se alimente daquilo que ela não conhece, isto é, daquilo que ela não vê ser plantado e nem colhido?

Ou, ainda, como esperar que uma criança prefira alimentos saudáveis que nunca aparecem na TV a produtos alimentícios que vêm numa caixa com os personagens de seu desenho animado favorito? Em outras palavras, como esperar que uma criança coma algo com o qual ela não se identifica?

Há muita preocupação com a educação formal de crianças e adolescentes, isto é, a parte acadêmica tradicionalmente ensinada nas escolas. Além disso, vivemos nos tempos em que creches oferecem disciplinas que fazem vista, como língua estrangeira para bebês, ou investem na introdução, extremamente precoce, de tecnologia a crianças ainda no bercário.

A educação alimentar, no entanto, parece ser frequentemente negligenciada, tanto por pais como pela escola. A preocupação parece se limitar aos aspectos nutricionais de uma refeição, já que uma alimentação fraca em nutrientes pode ter um impacto negativo no desenvolvimento da criança. Não é à toa que muitos pais lançam mão do iPad ou da TV na hora da refeição ou camuflam verduras no prato dos filhos. Para muitos, o importante é a criança comer. Não importa se ela não presta atenção naquilo que está ingerindo porque está ocupada olhando para a Galinha Pintadinha.

Quando digo ‘educação alimentar’, não estou me referindo a bons modos à mesa. Estou falando, entre outras coisas, de:

1. ensinar a reconhecer os alimentos in natura

2. ensinar a treinar o paladar com sabores e texturas diversos

3. ensinar sobre quem produz e de onde vêm as coisas que comemos

4. ensinar a cozinhar

5. ensinar que as diferentes estações do ano produzem alimentos distintos e que frutas e verduras da estação são produzidas com menos agrotóxico

6. ensinar a dar valor aos alimentos produzidos na região, que viajam menos para chegar a nossos pratos

7. ensinar que comer uma fruta cuja ‘embalagem’ é a própria casca que a protege é muito mais saudável e gera muito menos lixo do que comer produtos alimentícios cheios de conservantes e de embalagens de papel, plástico ou alumínio

Enfim, ensinar que MUITA coisa acontece nos bastidores de um prato de comida ou do lanche da tarde e que nossas escolhas têm uma ligação direta com o meio ambiente.

De quem seria, então, a responsabilidade de trabalhar a educação alimentar na infância? Não acredito que todo o peso da educação alimentar deva recair sobre os pais. Os pais têm, sim, responsabilidade, e muita. Mas também acredito que a escola deveria entrar na jogada.

Já que maioria de nós mora em florestas de concreto, pais e escolas precisam arrumar maneiras de compensar a distância entre o campo e a cidade, mostrando às crianças, desde bem pequenas, a importância da alimentação na vida do ser humano.

Eu acredito que toda criança deve ir à feira e que lugar de criança é na cozinha, sim. Para que a criança possa ir para a cozinha, uma ‘torre de aprendizagem’ pode ser muito útil. A ‘torre de aprendizagem’ nada mais é que uma plataforma com laterais que impedem a queda, como a da foto abaixo. Com base ajustável, deixando a criança na altura ideal para ‘ajudar’ na cozinha, é uma excelente aliada na educação alimentar.

Torre de aprendizagem. Foto por Larkin.family, Flickr, Licença Creative Commons

Torre de aprendizagem. Foto por Larkin.family, Flickr, Licença Creative Commons

No contexto escolar, sei que algumas instituições possuem hortas para que as crianças possam conhecer pelo menos um pouco dos alimentos in natura na prática. Porém, não seria o caso de incentivar ou até mesmo tornar obrigatória a existência de uma horta em todas as escolas?

Diante da importância da questão, não seria a educação alimentar uma disciplina tão fundamental como português e matemática?

Horta da escola Alvarado, em San Francisco, na Califórnia. E se todas as escolas tivessem horta? Foto por Kevin Krejci, Flickr, Licença Creative Commons

Horta da escola Alvarado, em San Francisco, na Califórnia. E se todas as escolas tivessem horta? Foto por Kevin Krejci, Flickr, Licença Creative Commons

 

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