Foto por Simon Wheatley, Flickr, Licença Creative Commons

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“Meu filho comia de tudo quando era bebê. De repente, parou de aceitar várias coisas.”

Já perdi a conta de quantas vezes li algo parecido com o trecho acima em grupos de maternidade na internet. Tem gente que diz que é fase, tem gente que diz que é diminuição de apetite, tem gente que diz que é dente nascendo. Mas isso não explica tudo. Afinal, muitas das crianças que passam a rejeitar os legumes e as verduras continuam aceitando, de braços abertos, biscoitos, leite achocolatado, bolos, pães, frituras, etc. E que “fase” é essa que muitas vezes dura anos ou até décadas?

Para mim, a rejeição repentina acontece, pelo menos em parte, porque os pequenos têm medo de experimentar alimentos novos. Entre 1 e 2 anos, muitas crianças desenvolvem o que os especialistas chamam de neofobia alimentar, isto é, medo de experimentar algo novo.

O que é exatamente a neofobia alimentar? O tal medo de experimentar alimentos novos é resquício de uma tática de sobrevivência de nossos antepassados que aparece na mesma época em que o bebê dá os primeiros passos. Mas o que aprender a andar tem a ver com resistência na hora da refeição?

Bebês andantes são, em princípio, capazes de começar a sair em busca dos próprios alimentos (forragear), mas ainda não têm experiência para saber o que é comestível ou não. Para reduzir as chances de se envenenarem, passam a rejeitar alimentos desconhecidos. Em outras palavras, a neofobia alimentar seria um mecanismo evolutivo de proteção da nossa espécie, para diminuir o risco de bebês ingerirem algo tóxico.

“Mas, se a criança comia tudo antes, os alimentos que passou a rejeitar não são novos ou desconhecidos!”, você deve estar se perguntando.

São, sim, eu insisto. Se, quando bebê, a criança comeu papinha ou comida amassada por muito tempo, dada de colher por um cuidador, essa criança não “conheceu” de verdade o que estava comendo. Experimentar o sabor daquilo que lhe é servido por meio de colheradas não é suficiente para muitas crianças. Outros sentidos precisam ser acionados ao longo da introdução alimentar. Para, de fato, “conhecer” o alimento, a criança precisa explorá-lo com as próprias mãos, cheirá-lo e observá-lo em pedaços grandes, isto é, a criança precisa “brincar” com a comida.

Comparem as duas fotos acima. Qual bebê está tendo uma experiência sensorial mais completa? Foto à esquerda por Neal Patel, Flickr, Licença Creative Commons e foto à direita por Sami Keinänen, Flickr, Licença Creative Commons

Comparem as duas fotos acima. Qual bebê está tendo uma experiência sensorial mais completa? Foto à esquerda por Neal Patel, Flickr, Licença Creative Commons e foto à direita por Sami Keinänen, Flickr, Licença Creative Commons

Em outras palavras, comer brócolis na papinha ou misturado com arroz e feijão numa colherada dada pelo cuidador não é o mesmo que comer brócolis por livre e espontânea vontade após explorar um florete da verdura com a mão.

Para complicar um pouco mais as coisas para o lado dos pais e cuidadores, entre 1 e 2 anos de idade, chega, também, a fase da descoberta da autonomia. Os pequenos percebem que têm autonomia sobre o próprio corpo e passam a, adivinhem, dizer ‘não’ para muita coisa na hora da refeição. Não é a toa que muitos passam a recusar a troca de fraldas e de roupa, entre várias outras coisas …

Se seu bebê ainda não completou 1 ano, libere a bagunça na hora da refeição antes que seja tarde demais! Sim, vai dar trabalho limpar a sujeira, mas reverter um quadro de seletividade alimentar quando ele(a) estiver maior dá MUITO mais trabalho!

Não estou falando de deixar o bebê segurar um biscoito maizena ou um pedaço de pão (que, por sinal, nem deveriam existir na vida de um bebê). Estou falando de deixar o bebê comer arroz, feijão, abóbora, espinafre, etc, isto é, comida mesmo, com as mãos.

Se seu bebê já começou a recusar muita coisa que antes aceitava, não se desespere. Dê um descanso à colher e veja se o bebê se alimenta melhor com as próprias mãos. Caso a situação não melhore, procure a ajuda de um(a) profissional especializado(a).

Para concluir, alguns esclarecimentos:

1. Não adianta somente deixar o bebê se alimentar com as próprias mãos e achar que vai dar tudo certo. O que você oferece ao bebê importa e MUITO. Devemos evitar, com MUITO empenho, açúcar, alimentos ultraprocessados com excesso de sal e gordura e carboidratos refinados para focar nos legumes, verduras e frutas. Não oferecer oportunidades suficientes para a criança conhecer de fato os alimentos e acostumá-la ao sabor de alimentos doces, carboidratos refinados, etc (isto é, alimentos que ativam os circuitos cerebrais do prazer) é a receita perfeita para a recusa de verduras e legumes depois de 1 ano.

2. Há variações individuais! Tem bebê que é alimentado por colheradas 100% do tempo e continua comendo bem. Isso pode acontecer, mas o mais comum é a criança ficar seletiva depois de uns meses.

3. Para uma introdução alimentar bem sucedida, o bebê não precisa comer com as mãos 100% do tempo. Ou seja, se você não se sente confortável em adotar o método BLW em tempo integral, não é o fim do mundo. Mas o bebê precisa ter, paralelamente às colheiradas, MUITAS oportunidades para participar ativamente da refeição e explorar os alimentos por conta própria. Quanto mais isso acontecer, maiores as chances de minimizar a fase de seletividade alimentar. E, quanto mais cedo o bebê começar a fazer a refeição inteira por conta própria, com autonomia, melhor.

Para mais dicas de como proceder na introdução alimentar, não deixe de ler a cartinha de um bebê de 6 meses com dicas de como os pais devem conduzir o processo.

AVISO/DISCLAIMER
Eu não tenho formação profissional em nutrição infantil ou nenhuma outra área clínica relacionada a distúrbios alimentares. Mas sou fascinada pelo assunto e leio muita coisa escrita por profissionais da área. O que eu publico aqui é fruto de um interesse pessoal e não deve, de maneira alguma, ser lido como recomendação médica.