Tem uma estação de marcenaria!

Outro dia, na pré-escola, o grupo do qual meu filho faz parte — composto de crianças entre 2 anos e meio e 3 anos incompletos — usou ferramentas de marcenaria. As crianças usaram martelo, prego e furadeira manual. De plástico? Não, tudo de verdade. Ninguém martelou ninguém na cabeça. Na verdade, não houve acidente algum.

Crédito: Eco Maternidade

Por que uma pré-escola haveria de criar um cantinho de marcenaria para crianças tão pequenas? Os motivos são vários e envolvem habilidades físicas, sociais e cognitivas. Além de ser uma atividade fascinante para os pequenos, trabalhar com marcenaria permite à escola criar um ambiente não-sexista. Outro ponto positivo da estação de marcenaria é que a criança aprende sobre regras de segurança (para participar, a criança precisa colocar luvas e óculos de proteção). Criar um espaço para marcenaria na pré-escola é, também, uma maneira de questionar a noção senso comum de que crianças são seres completamente incapazes.

Há muito incentivo à autonomia!

O incentivo à autonomia é levado muito a sério pela escola. Sempre que possível, de forma saudável e apropriado à faixa etária, as crianças são incentivadas a fazer as coisas por conta própria, de forma independente. Vestir o casaco, calçar os sapatos, ir ao banheiro, abrir a lancheira são todas tarefas que até mesmo crianças de 2 anos conseguem fazer com nenhuma ou pouca intervenção. Ao incentivar a autonomia, a escola está plantando sementinhas de auto-estima dentro de cada aluno. Afinal, quem não gosta de se sentir capaz?

As crianças aprendem a lidar com conflitos!

Criança pequena quer sempre brincar justamente com o brinquedo que está sendo usado pelo colega, não é? Quando existem este e outros tipos de conflito, os professores da pré-escola não recolhem o brinquedo disputado, não separam as crianças em desacordo e nem forçam nenhuma criança a pedir desculpas. Em vez disso, aproveitam a oportunidade para que as crianças aprendam a identificar seus sentimentos, a se expressar, a escutar o que os colegas têm a dizer e a encontrar, juntos, uma solução para continuarem brincando. Ao ajudar as crianças a solucionar conflitos, os professores dessa pré-escola evitam que se crie uma cadeia de abusos presente em tantas instituições escolares. A habilidade de resolução de conflitos, aliás, é algo útil para a vida toda, não? O mundo seria muito melhor se todos nós aprendêssemos a solucionar com conflitos ainda crianças.

As crianças brincam de verdade!

Na escola, há crianças de 2 anos e meio até 6 anos incompletos. Nem as crianças mais velhas recebem instrução formal. Somente a primeira atividade do dia, quando as crianças ficam separadas por grupos etários, é decidida pelos professores, podendo ser marcenaria, artes, blocos de madeira, blocos magnéticos, faz de conta, culinária, jardinagem, entre outras. Mesmo assim, a atividade não é muito estruturada, dura relativamente pouco tempo e nenhuma criança é forçada a participar o tempo todo. Depois disso, os grupos etários se desfazem e todas as crianças brincam livremente, podendo se movimentar à vontade. O abecedário e a tabuada podem esperar. Afinal, há cada vez mais evidências de que o ato de brincar é de extrema importância na infância, de que crianças precisam se movimentar para desenvolverem o sistema sensorial (artigo em inglês) e de que crianças se beneficiam muito da brincadeira com crianças de outras faixas etárias (em inglês).

As crianças saem para brincar ao ar livre (faça sol, chuva ou neve!)!

Passar uma parte do dia ao ar livre faz bem física e mentalmente. As crianças da pré-escola saem para brincar ao ar livre todos os dias, mesmo que esteja chovendo ou nevando do lado de fora. No ano passado, parece que só deixaram de sair dois dias ao longo do ano. O pátio da escola é simplesmente sensacional. De longe, não parece um espaço infantil. Para começar, o chão é de terra e não de concreto ou borracha sintética. Não há escorregas nem gangorras. Mas tem uma árvore para as crianças escalarem, espaço com ferramentas de jardinagem, uma horta orgânica, um minhocário, tocos de árvores enfileirados que servem de bancos para brincadeiras ou de ponte para as crianças atravessarem, caixas e baldes que viram de tudo um pouco (instrumentos musicais, maca para brincar de médico, etc). Ou seja, é um espaço que promove a brincadeira livre e criativa.

As crianças aprendem a respeitar o outro!

A escola abraça a diversidade de todas as formas. Há famílias homoafetivas, famílias adotivas, famílias estrangeiras e famílias bolsistas. O tema ‘família’ é o primeiro tema do ano letivo, sendo trabalhado de várias maneiras. Cada criança tem a oportunidade de contar a história de sua própria família a partir de uma foto e há, no cantinho de leitura, livros que mostram diversas estruturas familiares. Além disso, pais de alunos compartilham celebrações religiosas e culturais de seus países de origem.

Os pais participam!

A escola é uma cooperativa, isto é, os pais ‘trabalham’ na escola, ajudando a equipe de professores. As famílias optam por ajudar uma ou duas vezes por mês. Não é obrigatório, mas praticamente todas as famílias o fazem (mesmo no caso de tanto o pai quanto a mãe trabalharem fora em tempo integral). É uma ótima maneira de ver a escola em ação, conhecer melhor as pessoas que passam tanto tempo com seu filho e aprender sobre a filosofia da instituição. Os pais podem colaborar tanto no dia a dia da escola (ajudando no cuidado com as crianças — troca de fralda, idas ao banheiro –, na limpeza do espaço, brincando com os alunos, etc) ou em alguma tarefa administrativa (manutenção do website, participação no comitê gestor da escola, etc).

Nossos filhos e o planeta precisam de mais escolas assim no mundo!