*Este é um guest post escrito pela cozinheira e cooking coach Mônica Souza*

Um dos maiores desafios na criação dos filhos diz respeito à alimentação. Somos bombardeados todos os dias com milhares de informações sobre o certo e o errado na hora de comer, sobre superalimentos, dietas da moda e sobre vilões e mocinhos dos pratos. Ficou muito difícil escolher um caminho e o que deveria ser natural e instintivo se tornou um grande dilema. Duvido que nossas bisavós tenham se preocupado se deveriam comer ovos inteiros ou somente as claras… Acredito que um bom começo para falar sobre alimentação infantil seria pensar em como se molda o paladar, e se há algo que os pais podem fazer desde cedo para facilitar a aceitação dos alimentos.

Foto por Linda Aslund, no Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Linda Aslund, no Flickr, Licença Creative Commons

As preferências alimentares são determinadas por vários fatores:

O gosto inato, que é determinado geneticamente

O gosto inato, que é um componente genético, é dado por programações que nos permitem perceber o sabor de cada alimento. Cada sabor é captado pelas papilas gustativas localizadas na língua. A percepção dos sabores é fundamental na modulação das nossas preferências. Por exemplo: o sabor amargo nos protegeu evolutivamente de ingerir alimentos venenosos ou tóxicos. A percepção do sabor ácido colabora para a rejeição de alimentos que possam estar estragados. O sabor doce e o umami (sabor relacionado a carnes e alimentos salgados) são percebidos como agradáveis. Fica fácil entender a nossa preferência por alimentos ricos nestes sabores. O sabor salgado não é percebido antes do quarto mês de vida, portanto, não é inato. Existe ainda um sexto sabor, chamado de “fat taste”, que pode ter evoluído por uma necessidade de sobrevivência, para ajudar na detecção de alimentos com alta carga energética. A preferência por gordura, portanto, pode ser algo natural e programado geneticamente.

Fatores culturais

Ainda que o nosso paladar possa ser determinado pela percepção dos sabores, os fatores culturais são fundamentais na formação das nossas preferências alimentares. O que é adequado comer em cada refeição, alimentos proibidos ou recomendados, são determinantes culturais que influenciam em nossas escolhas e preferências. Crianças alemãs comem chucrute, que é repolho fermentado. Dá pra imaginar uma criança brasileira comendo tranquilamente um prato de repolho azedo?

Fatores Familiares e Ambientais

Além da interação entre fatores genéticos e culturais, há também o componente familiar na estruturação das preferências alimentares. O que a família come, o ambiente físico e emocional na hora da alimentação e a exposição a novos alimentos, ajudam a formar o paladar das crianças. Há estudos que mostram que mesmo antes do nascimento estamos expostos aos sabores através do líquido amniótico e, posteriormente, do leite materno. Dependendo desta exposição, a aceitação de novos sabores pode variar. Quanto mais variada é a alimentação da mãe, há uma tendência a uma maior aceitação de novos sabores pela criança, ainda que não se possa garantir que haverá esta aceitação. Dois fatores são importantes: a frequência da exposição e o ambiente (fatores emocionais). Parece haver um consenso de que são necessárias 15 exposições consecutivas para que se aprenda a gostar de um novo sabor.

Imitação

A imitação do comportamento é outro componente no desenvolvimento do paladar. Crianças tendem a imitar o comportamento dos pais. Portanto, o exemplo é ponto indiscutível quando se fala em modulação do comportamento alimentar infantil. Pais que se alimentam bem tendem a influenciar positivamente na alimentação dos filhos. Outro fator relacionado à imitação é a presença dos pais na hora da refeição. Estudos mostram que crianças que se alimentam junto com a família, num ambiente tranquilo e amoroso, tendem a comer melhor. Acredito que neste momento você deve estar se perguntando: Tá, e o que eu faço com tanta informação? Como isso vai me ajudar na prática? Como eu disse lá no início, falar sobre o desenvolvimento do paladar era um bom começo de conversa. Como cozinheira e apaixonada por comida de verdade, nos próximos posts vou te ajudar a pensar como você, na sua cozinha, pode ajudar seu filho a comer melhor e a desenvolver bons hábitos alimentares.

Para saber mais, recomendo:

O Treino do Paladar

Healthy Food: Can you train yourself to like it?

A Formação dos Hábitos Alimentares na Infância

 

Mônica Souza

Mônica Souza é cozinheira e adora falar sobre alimentação saudável e comida de verdade. Odeia comida de caixinha e acredita que sua missão no mundo é despertar o chef de cozinha que existe dentro de cada um de nós. Pilota o fogão lá na Cozinha Consciente.