Foto por Ed Dale, Flickr, Licença Creative Commons

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Alguns anos atrás, antes de nosso filho nascer, viajei com o marido e uns amigos para um parque florestal a cerca de uma hora daqui de Washington DC. Ficamos todos hospedados em um hotel dentro do parque. O hotel possui restaurante, mas nenhuma refeição está incluída na diária, nem mesmo o café da manhã. Na manhã seguinte à nossa chegada, um episódio que já rendeu muita conversa aconteceu após tomarmos café da manhã.

As contas das refeições feitas no restaurante devem ser pagas em um quiosque na porta do estabelecimento. Além de ponto de pagamento, o quiosque é também um café, servindo bebidas quentes, frutas e alguns pães. Estava na fila para quitar a conta com uma amiga e sua filha, que na época tinha um pouco menos de três anos.

Ao chegar no caixa, avistamos um enorme ‘porta-pirulitos’, que estava, obviamente, também no campo de visão da pequena de três anos. Preciso dizer qual foi a reação da menina? Com muita dificuldade, conseguimos pagar pelo café da manhã sem pagar também por um pirulito. Ao longo do dia, no entanto, o assunto voltou inúmeras vezes. A menina insistiu tanto para ganhar um pirulito que a mãe acabou cedendo e comprando um.

Contei esta história a alguns amigos. O episódio sempre acaba virando uma discussão ‘filosófica’ sobre a presença do porta-pirulitos no balcão do quiosque.

É ético o quiosque/café do hotel onde estávamos hospedados colocar o porta-pirulitos no balcão por onde todos que fazem refeição no restaurante têm que passar?

O porta-pirulitos deveria ou não estar disponível ao lado do caixa? As opiniões de quem ouve a história são variadas. Tem gente que acha que cabe aos pais, somente a eles, controlar seus filhos em uma situação como essa. Tem gente que acha que a prática de expor doces em estabelecimentos comerciais deveria ser controlada. Isto é, deveria haver alguma regulamentação protegendo os consumidores. Afinal, estamos falando de crianças pequenas que ainda não têm capacidade de avaliar os malefícios do doce.

Sempre acho as conversas interessantíssimas. Considerando o histórico do blog, não é difícil imaginar que me encaixo no grupo dos que acham que o porta-pirulitos deveria passar LONGE do balcão do quiosque.

Sei que muita gente acha a ideia absurda e impraticável. Talvez esteja sendo ingênua mesmo. Mas prefiro pensar que, na verdade, estou antecipando uma situação que, no futuro, será real.

Alguns anos atrás, quem diria que conseguiriam proibir o cigarro em ambientes fechados, acabar com a propaganda em televisão, aumentar as taxas sobre os produtos derivados do tabaco, etc? Pois as leis antifumo conseguiram reduzir, e muito, o número de fumantes no Brasil.

Para mim, o açúcar é, muito provavelmente, o cigarro de amanhã.

Segundo pesquisas, o açúcar não seria somente uma caloria desprovida de nutrientes e causador de cáries, como muitos já sabem. O açúcar seria em si um veneno.

De acordo com Robert Lustig, especialista em obesidade infantil da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, há cada vez mais evidências de que o açúcar pode desencadear processos que conduzem à toxicidade hepática e várias outras doenças.

Foto por Eduardo Martín Blasco, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Eduardo Martín Blasco, Flickr, Licença Creative Commons

A ideia é que o impacto do consumo excessivo de açúcar na saúde do ser humano vai além de fornecer calorias vazias que consumimos em excesso e nos fazem engordar. O açúcar induziria todas as doenças associadas à síndrome metabólica, incluindo hipertensão, resistência à insulina, altos níveis de triglicerídeos e diabetes.

A obesidade não seria a causa, como muitos acreditam, de diabetes, hipertensão, etc, e sim um marcador de disfunção metabólica, ainda mais predominante que a obesidade.

Lustig é defensor da regulamentação do açúcar, assim como o álcool e o cigarro são regulamentados.

Além das questões de toxicidade citadas acima, Lustig menciona outros argumentos para justificar sua posição, como, por exemplo, o impacto negativo do açúcar na sociedade, em função dos altos custos econômicos, de assistência médica e humanos associados à síndrome metabólica.

Para mais informações sobre os argumentos de Robert Lustig, leia este artigo da New York Times Magazine, este da Eating Well ou este da Connect Well (todos em inglês).

* este texto é uma versão revisada de um post que escrevi em 2013 para um blog sobre alimentação que parei de atualizar.