Fotos por Alicia Voorhies, Flickr, Licença Creative Commons

Fotos por Alicia Voorhies, Flickr, Licença Creative Commons

No texto sobre brinquedos de plástico, falei sobre o caso da substância Bisfenol A (BPA), banida recentemente no Canadá, nos EUA, na União Europeia e no Brasil na fabricação de mamadeiras para bebês. Há cada vez mais evidências de que o BPA atrapalha o funcionamento do sistema endócrino, o sistema que regula os hormônios no corpo humano.

Segundo pesquisas, o BPA imita a ação do estrogênio, o hormônio que tem papel chave no nosso organismo, do crescimento ósseo e ovulação à função cardíaca. Níveis baixos ou níveis elevados de estrogênio, especialmente no útero ou na primeira infância, podem alterar o desenvolvimento do cérebro e de outros órgãos. Em outras palavras, é como se o BPA ‘reprogramasse’ nossas células, contribuindo para o desenvolvimento de doenças.

Se o BPA é tóxico a ponto de os governos acima o banirem, por que a substância foi usada pela indústria por tanto tempo antes da proibição? Por que as agências governamentais responsáveis pela saúde pública não conduziram testes extensivos antes de as mamadeiras de plástico começarem a ser comercializadas?

Infelizmente, casos assim são recorrentes. Nossa sociedade se preocupa muito com potenciais problemas agudos a que crianças pequenas podem ser submetidas, mas os potenciais problemas crônicos que a exposição a certos objetos causa nas crianças são muitas vezes ignorados.

O caso da mamadeira é um ótimo exemplo, vide as instruções de esterilização e todos os apetrechos de esterilização que existem para vender, a fim de evitar intoxicações.

Não quero, de maneira alguma, minimizar a importância de proteger crianças pequenas de uma intoxicação em função de uma mamadeira mal lavada.

Mas quais seriam as consequências a longo prazo para as crianças que ficaram meses ou anos tomando leite em mamadeira, muitas vezes morno, o que potencializa o problema, já que o contato com calor libera ainda mais as toxinas dos plásticos?

Além disso, o BPA foi proibido somente em mamadeiras (em alguns países também em ‘copinhos de transição’). E os pratos, talheres e copos/garrafinhas infantis comuns, atualmente quase todos de plástico? Não têm BPA?

Precisamos começar a prestar mais atenção aos problemas crônicos, isto é, às doenças que demoram a aparecer.

Eu sempre acreditei que, antes de serem colocados à venda, os produtos disponíveis nos estabelecimentos comerciais passassem por uma extensa bateria de testes quanto à segurança para a saúde humana. Afinal, até um frasco de shampoo no Brasil é obrigado a vir com data de validade!

Infelizmente, eu não poderia estar mais enganada. Frequentemente, os testes de segurança restringem-se apenas a potenciais problemas agudos e ignoram os problemas que podem ser causados após a exposição prolongada.

Quem deve ser responsável por testar produtos antes de serem comercializados? A própria indústria?

Ou seria esse o papel das agências governamentais?

Você confiaria nos testes conduzidos pela indústria? Não haveria conflito de interesses?

Seria justo deixar o ônus financeiro dos testes a cargo das agências governamentais?

Diante da falta de regulamentação adequada e da incerteza quanto à segurança de um produto disponível no mercado, qual seria o nosso papel como consumidores?

O BPA foi banido de mamadeiras aqui nos EUA após grande pressão dos consumidores. A pressão foi tanta que muitas empresas já haviam parado de produzir mamadeiras com a substância quando o FDA (Food and Drug Administration) finalmente decidiu pela proibição.

Algo semelhante está acontecendo com várias outras substâncias, gradualmente eliminadas de produtos infantis. Babadores, brinquedos, mordedores, tapetes de atividades e muitos outros itens atualmente estão disponíveis em versões livres de PVC (policloreto de polivinila), chumbo e outras substâncias potencialmente tóxicas em decorrência da demanda dos consumidores norte-americanos.

Quem sabe, no futuro, essas alterações por demanda do consumidor não serão implementadas na legislação e todos os brinquedos e produtos infantis passem a ser produzidos de forma mais segura?

Assim, não somente os filhos de pais antenados nessas questões, mas todas as crianças, teriam acesso a produtos mais confiáveis.

Uma das etapas fundamentais para que mudanças de práticas empresariais aconteçam é a disseminação de informação entre consumidores. Se você gostou deste post e acha que o conteúdo dele pode interessar a outras pessoas, por favor, compartilhe-o em suas redes sociais!

Além da questão do Bisfenol A (BPA), mamadeiras são problemáticas por vários outros motivos. Para entender porque a mamadeira é um produto tão nocivo à criança, recomendo fortemente o blog Mamadeira Nunca Mais, da Cristine Nogueira, professora da PUC-Rio. 

REFERÊNCIAS E MAIS INFORMAÇÃO:

http://www.motherjones.com/environment/2014/03/tritan-certichem-eastman-bpa-free-plastic-safe

http://www.theatlantic.com/features/archive/2014/03/the-toxins-that-threaten-our-brains/284466/

http://www.ceh.org/campaigns/plastics/ceh-action/a-warning-for-parents-bpa-free-may-not-equal-safe/

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/09/anvisa-proibe-venda-de-mamadeira-plastica-que-contenha-bpa.html