Foto por Steffen Sameiske, Flickr, Licença Creative Commons

Foto por Steffen Sameiske, Flickr, Licença Creative Commons

Você, alguma vez, já considerou a possibilidade de tapar os olhos de seu bebê na hora da refeição? Acho que a resposta de qualquer pessoa em sã consciência seria ‘não’, sem qualquer hesitação.

Pois uma novidade recém-chegada ao mercado brasileiro coloca a criança em uma situação, até certo ponto, semelhante. As papinhas em sachê, muito usadas nos EUA em função da praticidade, conseguem transformar algo ruim, a papinha industrializada, em algo pior ainda.

As papinhas industrializadas, como muitos sabem, apresentam uma série de problemas. Tanto as versões salgadas quanto as doces contêm ingredientes indesejados, têm pouca variação de cor – contrariando a abundância de cores que encontramos naturalmente nos alimentos – e têm sua consistência pastosa demais, semi-líquida, impedindo que o bebê explore a textura natural dos alimentos e comece a aprender a mastigar.

As papinhas em sachê ainda têm o agravante de serem uma refeição feita “no escuro”, já que a criança se alimenta diretamente de uma abertura no topo do saquinho que, ao contrário do vidro das papinhas tradicionais, não é transparente.

Em outras palavras, as papinhas em sachê, além de apresentarem todos os problemas associados às papinhas industrializadas, ainda roubam de nossos filhos a oportunidade de explorar os alimentos com os olhos.

Se o bebê não vê aquilo que está comendo justamente no momento em que está conhecendo o mundo e aprendendo a se alimentar de outras coisas que não leite, como esperar que ele se interesse pela hora da refeição e desperte curiosidade por frutas, verduras e legumes de verdade?

Qual será o impacto da exposição prolongada a papinhas semi-líquidas na construção dos hábitos alimentares da criança? O que acontece quando uma criança acostumada aos sabores e à aparência relativamente homogêneos das papinhas é apresentada à comida “de verdade”?

Sachês de papinha roubam de nossos filhos a oportunidade de explorar os alimentos com os olhos. Crédito: Eco Maternidade

Sachês de papinha roubam de nossos filhos a oportunidade de explorar os alimentos com os olhos. Crédito: Eco Maternidade

Se você não é adepto da técnica Baby Led Weaning e prefere seguir o caminho das papinhas, dê prioridade às feitas em casa. Mas convido você a pensar além do aspecto nutricional da papinha. Tente enriquecer a introdução do bebê ao mundo dos alimentos.

Educação alimentar é um processo muito mais amplo do que se assegurar de que seu filho comeu a porção de papinha dada a ele no almoço ou no jantar, mesmo que a papinha seja caseira e nutritiva.

Ao contrário do que muitos acreditam, a papinha feita em casa não deve ser passada no liquidificador e, sim, amassada com um garfo ou no passa-verdura, para que retenha parte da textura. Bebês não precisam ter dentes para mastigar: a mastigação é feita com a gengiva nas etapas iniciais.

Se os devidos cuidados para evitar que o bebê engasgue forem tomados, a papinha com pedaços é infinitamente superior à papinha industrializada e até mesmo à papinha caseira liquidificada. E, assim que a etapa inicial de introdução a alimentos sólidos terminar, tente livrar-se completamente da papinha, semi-líquida ou com pedaços e passe a dar a seu filho, na medida do possível, a mesma comida que você come.

Também ao contrário da crença popular, não devemos limitar a refeição de bebês a comidas sem graça, de sabor suave e pouco tempero. Em vez disso, por que não oferecer sabores complexos e fortes para treinar o paladar dos pequenos? Dou tiras fininhas de cebola crua e de cebola caramelizada desde que meu filho começou a comer comida, na tentativa de ele se acostumar com o sabor e a consistência do vegetal que tanta gente rejeita. Ele come feliz da vida!

Outro aspecto essencial na educação alimentar dos pequenos envolve o tato. Sei que faz muita sujeira, mas deixar que crianças pequenas explorem a comida com as mãos, pelo menos durante uma parte da refeição, é uma das melhores coisas que podemos fazer para que elas aprendam sobre os diferentes tipos de alimentos.

Aprender a comer é muito mais do que ingerir colheradas da papinhas ou sugar sachês. Bebês precisam experimentar os alimentos através de quatro dos cinco sentidos humanos: visão, paladar, tato e olfato!

Este texto foi inspirado no conteúdo das fantásticas aulas que fiz com a chef e educadora Christy Przystawik, especialista em alimentação infantil.

É lógico que quem oferece papinha industrializada, de potinho ou de sachê, aos filhos o faz com a melhor das intenções. Nenhum pai ou mãe quer que seus filhos adquiram maus hábitos alimentares. Minha intenção aqui não é culpar os pais que fazem uso da papinha industrializada. O texto é um convite à reflexão, principalmente no que diz respeito às consequências a longo prazo de uma introdução ao mundo dos alimentos sólidos feita de modo inadequado.

REFERÊNCIAS E MAIS INFORMAÇÃO:

https://www.facebook.com/asdeliciasdodudu/posts/581996071864490

http://fechandoziper.com/blog/desvendando-rotulos/papinha-industrializada-e-agora/

http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI882-10591,00.html

http://feedingfamilieswell.blogspot.com/