Meu filho usa o penico desde quando tinha seis meses. Não estava nos nossos planos colocá-lo no penico tão cedo, mas ele mesmo nos incentivou.

Quando o Eduardo estava com cerca de quatro meses, comecei a notar que ele fazia o número dois assim que acordava e eu o colocava em seu balancinho perto de mim na cozinha enquanto eu preparava o café da manhã. Era quase que imediato.

Eu e o marido começamos, então, a cogitar a possibilidade de aproveitar regularidade do bebê e colocá-lo sentadinho em um penico em vez de colocá-lo no balancinho.

Conversando com a minha mãe, ela se lembrou do penico que eu e meu irmão usamos quando criança. O penico, na verdade, era um troninho de madeira com braços laterais, bem confortável, com uma bandeja na frente, onde podíamos brincar.

A ideia de um troninho como esse para o Eduardo parecia perfeita, pois os braços e a bandeja lhe dariam o apoio necessário para não cair. Mas onde encontrar um troninho com essas características?

Uma busca em lojas online tradicionais não foi bem sucedida. O máximo que encontrei foi um troninho com braços mas sem a bandeja.

Parti, então, para uma busca no Etsy, que é um portal de comércio eletrônico onde qualquer pessoa pode abrir uma loja virtual e vender sua produção, como se fosse uma feira de artesanato. Encontra-se de tudo um pouco: bijuterias, bolsas, roupas, objetos de arte, brinquedos, móveis e … penicos! O que é muito bacana é que podemos entrar diretamente em contato com quem produz os itens e solicitar produtos sob medida.

Encontrei a lojinha de um marceneiro especializado em penicos sob encomenda extremamente simpático. Ele se interessou pelo nosso caso e trocamos várias mensagens até chegarmos ao design de um troninho adequado para a idade do Eduardo. Com duas camadas de painéis laterais e de encosto (sendo uma camada removível) e pés ajustáveis, o troninho serve para bebês e também para crianças maiores. Teria, ainda, uma cestinha para guardar brinquedos ou livros e uma bandeja com miçangas para a criança brincar.

Protótipo do troninho que encomendamos pela internet.

Protótipo do troninho que encomendamos pela internet.

Resolvemos encomendar o troninho e ver o que aconteceria. Não poderia estar dando tão certo! Recebemos o troninho pelo correio em um fim de tarde. No dia seguinte, de manhã, Eduardo estreou seu penico com sucesso e assim tem sido desde então. Todo dia de manhã ele usa seu troninho. Quando ele passou a comer uma quantidade maior de alimentos sólidos, passou a evacuar mais de uma vez em alguns dias. E nós observamos que a evacuação acontece sempre quando ele acorda de uma soneca ou logo depois de uma refeição. Passamos, então, a colocá-lo no penico frequentemente nesses momentos também.

Obviamente, não sabemos o que acontecerá quando o Eduardo crescer um pouco e tomar consciência de suas necessidades de evacuação. Será que ele estará tão acostumado ao penico que não terá dificuldade de usá-lo deliberadamente? Ou será que se recusará a interromper sua brincadeira para sentar-se no troninho? Só o tempo dirá.

Resolvi contar essa história com o intuito de instigar uma reflexão sobre nossas práticas em relação às necessidades fisiológicas de bebês e crianças pequenas.
Diferentes culturas adotam diferentes métodos.

Em muitos lugares do mundo, a criança não chega a usar fralda, nem descartável, nem de pano.

Nas culturas onde se usa fralda, há um grupo que pratica a técnica conhecida como Elimination Communication em inglês (já vi jornais brasileiros se referirem ao método como ‘Higiene Natural’). Para quem não conhece, a técnica EC consiste em prestar atenção às pistas dadas pelo bebê quando está para urinar ou evacuar e segurá-lo no penico. Tem gente que usa a técnica em tempo integral. Tem gente que pratica somente durante parte do dia. Tem gente que começa quando o bebê é ainda recém-nascido. Tem gente que espera um pouco. É flexível. Eu e meu marido estamos, no fundo, praticando uma versão de EC com o Eduardo, apesar de que esta não era nossa intenção quando ele nasceu. Diria que estamos praticando uma versão ‘meio expediente’, pois nosso objetivo não é pegar todos os pipis no penico.

A maioria das pessoas que vivem em países ocidentais, contudo, usa fralda e do tipo descartável. Quando a fralda descartável foi criada, ela era usada somente quando se estava fora de casa. Em pouquíssimas décadas, passou-se a usar fralda descartável em bebês 24 horas por dia. Um estudo da National Geographic estimou que um bebê norte americano usa, em média, 3.796 fraldas descartáveis ao longo dos primeiros anos de sua vida.

O uso super frequente de fraldas descartáveis passa uma idéia de modernidade e progresso para muitos. Mas será que é isso mesmo que a fralda descartável representa? Dá para enxergar avanço em um item com vida útil tão curta e tanto tempo para se decompor?

Além de a fralda em si não ser biodegradável, o “conteúdo” que é descartado junto com ela acaba sendo descartado no lugar inadequado, isto é, em aterros sanitários ou em lixões, dependendo da infra-estrutura do município, em vez de ser descartado em local preparado para lidar com dejetos humanos.

Vale lembrar que antes de ser usada por um par de horas e depois descartada, uma fralda precisa ser produzida, o que requer matéria-prima e energia. Além disso, o processo de produção da fralda descartável em si é bastante poluente, em função do do cloro que é usado para deixar as fraldas brancas.

Mais recentemente, têm surgido no mercado fraldas descartáveis “ecológicas”, branqueadas sem o uso de cloro e compostas de celulose certificada pelo FSC (Forest Stewardship Council, organização sem fins lucrativos que promove o manejo sustentável de florestas), reduzindo um pouco o impacto ambiental associado ao processo de produção das fraldas. Algumas dessas fraldas “ecológicas” são feitas a partir de materiais biodegradáveis, como o bioplástico de amido de milho, por exemplo, na tentativa de resolver o problema do descarte. Mas as coisas não são tão simples como podem parecer: as fraldas não são biodegradáveis em aterros sanitários, destino final da maioria delas. Para que a decomposição aconteça de forma rápida, as fraldas precisam estar em um ambiente adequado para isso e aterros sanitários não oferecem oxigênio e umidade suficientes. De que adianta descartar a fralda biodegradável junto com o lixo comum, dentro de um saco plástico convencional, para, literalmente, enterrá-la no aterro sanitário?

Como alternativa às fraldas descartáveis, as fraldas de pano estão voltando com força. Existe uma quantidade enorme de modelos e marcas no mercado norte-americano. No Brasil existem algumas opções. As versões atuais são muito mais fáceis de serem usadas do que as fraldas de pano antigas.

Mas as fraldas de pano também requerem o uso de matéria-prima e energia para serem produzidas. E precisam de energia para serem higienizadas continuamente. Sim, elas são melhores para o meio ambiente. Mas, para a diferença entre as descartáveis e as de pano ser realmente significativa, as fraldas de pano devem, preferencialmente, ser usadas por mais de uma criança ao longo de sua vida útil, a lavagem deve ser feita com água fria e a secagem não deve ser feita sem secadora elétrica, isto é, deve-se estender as fraldas no varal.

Quanta energia poderia ser economizada caso prestássemos mais atenção ao comportamento fisiológico de nossos bebês e crianças pequenas oferecendo-lhes o penico?

Obs: sei que o desfralde precoce é um tema bastante polêmico. Há um grupo que argumenta que tirar a fralda de uma criança que ainda não está pronta para o desfralde tem consequências negativas, pode causar constipação, infecção urinária, etc, muitas vezes de natureza psicológica. Tomei a liberdade de focar em questões ambientais, mas deixo aqui algumas impressões sobre o desfralde precoce. Não acho que faça sentido inserir os casos de Elimination Communication na discussão. Não há como comparar uma criança que é, desde bebê, acostumada a fazer suas necessidades no penico com uma criança que, durante toda sua vida, passou 24 horas por dia de fralda e, portanto, acostumou-se a fazer suas necessidades somente na fralda. Evacuar, mais ainda do que urinar, em um ambiente estranho não é fácil inclusive para muitos adultos, vide os casos de gente que tem constipação intestinal quando viaja, isto é, fora do ambiente conhecido. Elimination communication não é desfralde precoce. Desfralde precoce é forçar uma criança que se acostumou a fazer suas necessidades fisiológicas na fralda a e ainda não demonstrou sinais de que está pronta para largá-las.

Este texto foi originalmente publicado no portal Minha Mãe que Disse, em maio de 2014, quando meu filho ainda tinha 1 ano e 5 meses (ele completou 3 anos em dezembro de 2015). Em breve, publicarei aqui no Eco Maternidade a continuação da nossa história de desfralde não muito convencional. Adianto que o uso do método Elimination Communication deu MUITO certo. Aguardem as cenas do próximo capítulo! ☺