Maria Victoria nas etapas iniciais do BLW

Maria Victoria nas etapas iniciais do BLW. Crédito: Ledyane Azevedo

*Este é um guest post escrito pela cozinheira e cooking coach Mônica Souza*

BLW – Baby-Led Weaning é uma técnica utilizada para apresentação de alimentos sólidos para os bebês. Criada pela americana Gill Rapley, já é bastante conhecida em alguns países e tem ganhado muitos adeptos por aqui nos últimos anos.

O ponto central do BLW é deixar que o bebê se alimente sozinho, assim que se inicia seu interesse pela alimentação dos adultos ao seu redor. Numa tradução livre, baby-led seria “conduzida pelo bebê” e weaning, desmame. Então seria “desmame conduzido pelo bebê”. O papel dos pais seria oferecer os alimentos e deixar que a criança os explore livremente, sem forçar, sem obrigar a comer.

O papel da alimentação sólida no primeiro ano não é exatamente o de nutrir. A amamentação é a responsável por suprir as necessidades nutricionais. Se a mãe não pode amamentar, por qualquer razão que não nos cabe aqui discutir, o ideal seria procurar um banco de leite ou uma fórmula adequada para seu bebê. A alimentação sólida deve ser introduzida para que a criança se acostume a novos sabores e texturas.

O momento ideal para se introduzir o BLW acontece com o despertar do interesse pelo alimento que o adulto está ingerindo, geralmente entre o 4º e o 6º mês.

Alguns sinais de prontidão devem ser observados:

  • Quando o bebê começa a demonstrar interesse pelo que a família come;
  • Quando o bebê já consegue sentar-se sem apoio;
  • Quando o bebê perde o reflexo de colocar para fora todo alimento sólido que é oferecido;
  • Quando o bebê mostra que já sabe mastigar, mesmo quando ainda não tem dentes;
  • Quando o bebê já consegue pegar objetos com facilidade.

O BLW basicamente consiste na exploração dos alimentos pela criança. Os pais devem oferecer a comida e deixar que a criança pegue com as mãos e explore cheiro, sabor e textura. Sem purês, sem papinhas. Alimentos na forma em que os adultos comem, preparados com ingredientes frescos, sem uso de industrializados, temperados com ervas frescas e secas, sal marinho (que contém mais nutrientes), usando gorduras de qualidade (azeite, óleo de coco, manteiga). É importante não oferecer alimentos em pedaços pequenos. O ideal é fazer bastonetes com os vegetais, facilitando a pega.

As refeições devem ser feitas junto com a família, com supervisão para gerenciar algum engasgo que porventura possa ocorrer. Os defensores da técnica afirmam que os bebês aprendem rapidamente a evitar o engasgo, usando o reflexo de gag, colocando o alimento para fora, caso necessário.

As vantagens da técnica estão associadas à não necessidade de preparo de comida separada para o bebê, uma vez que ele pode comer o que os adultos estão comendo (pais que têm uma alimentação saudável saem em vantagem, nesse caso); aprendizado do sabor real dos alimentos e familiaridade com diferentes texturas; introdução do bebê nas refeições familiares, criando um momento de troca prazerosa e afetiva; aprendizagem da mastigação eficiente mais cedo, em detrimento da simples deglutição de papas.

Uma das orientações da criadora do método é entrar nos fóruns de debates, ler sobre o assunto, assistir aos vídeos e observar a experiência de quem já está usando a técnica.

Buscamos um belo exemplo de sucesso do BLW para que os pais se sintam encorajados a pesquisar e experimentar.

O relato a seguir foi escrito pela Ledyane Azevedo, mãe da Maria Victoria.

“Maria Victoria mamava leite materno exclusivamente e em livre demanda desde o nascimento. Como vivia no colo, sempre nos viu comendo e bebendo. Por volta dos 4 meses e meio, começou a mostrar interesse pelo que levávamos à boca. Tentava puxar o copo ou o alimento das nossas mãos, mas ainda não permitíamos. Eu estava bem orientada quanto ao meu leite ser suficiente para suprir todas as necessidades dela naquela fase, então nem mesmo água era oferecida.

Um dia, estava comendo uma maçã, parei para responder uma mensagem no celular e deixei a fruta por um segundo. Foi o suficiente para Maria Victoria se jogar na introdução alimentar! Se atracou à maçã. Empolgada, dava altas gengivadas, adorando a experiência! No fim era maçã pra todo lado e uma bebê toda satisfeita com a novidade. Faltavam três dias para ela completar seis meses.

Como a vida é sempre cheia de conexões lindas, por acaso, no dia seguinte, li sobre o BLW num grupo de pais e mães do Facebook. Achei interessantíssimo! Fui pesquisar melhor e, depois de ler vários depoimentos e ver os vídeos, me apaixonei. Maria Victoria tinha dado o sinal de que estava pronta para a introdução de sólidos e eu decidi que seria ele o método usado para apresentar os alimentos a ela.

Ficamos ainda mais duas semanas somente no leite materno, até o dia da consulta mensal com a pediatra. Ela segue uma linha diferente e era importante para mim receber as orientações dela quanto à ordem do que seria oferecido, respeitando, assim, o organismo da filhota.

A partir daí, a bagunça começou!

Eu preparava os alimentos de acordo com a lista da pediatra, mas oferecia em forma de BLW.

No começo, não tínhamos o cadeirão. Eu forrava o tapete da sala e me sentava com ela. Era uma delícia acompanhar as caras e bocas enquanto ela descobria esse novo mundo!!

Eu cortava o alimento em pedaços grossos e compridos, falava o nome, comia com ela … era fantástico poder ver acontecer diante de mim o que eu tinha lido! Bebês sabem MESMO comer sozinhos, desde o primeiro dia!! As gengivas são fortes para mastigar mesmo sem dentes!!

Começamos com a fruta no meio da manhã (banana prata, que logo virou um sucesso!), depois mamão, laranja lima, caqui, maçã, melancia. Depois de umas semanas, passei a servir também o almoço. No mês seguinte, a fruta da tarde. Só quanto ela tinha nove meses é que passei a servir o jantar. Fazíamos todas as refeições juntas, à mesa, e ela ao me ver começava a imitar.

Não oferecia sucos, pois aprendi que é muito melhor nutricionalmente oferecer a fruta in natura para o bebê comer acompanhado de água do que bater tudo junto, e sempre deixei água disponível durante as refeições.

Maria Victoria já um pouco maior se deliciando na hora das refeições!

Maria Victoria já um pouco maior se deliciando na hora das refeições! Crédito: Ledyane Azevedo

A única dificuldade que tive foi com meu marido. Maria Victoria pegava vários pedaços, enfiava tudo na boca e ele morria de medo de ela engasgar. Os primeiros gag reflex que ele viu, então, achei que ele fosse enfartar! Mas eu sempre dizia pra ter calma, que era normal, para não mexer nela, que ela sabia fazer a comida voltar para a parte da frente da boca, como sempre fazia. Demorou para ele aceitar, mas hoje aprova o resultado.

Maria Victoria curtia muito! Prendia o que quer que fosse naquelas mãozinhas gordas, metia as gengivas e mastigava. A comida escorregava, saltava, fugia e ela não desistia.

A fase da descoberta não durou muito. Logo ela entendeu qual era a finalidade daqueles “brinquedinhos” e comia mesmo! Eu via no cocô a quantidade de sólidos que ela ingeria.

Os dentes foram chegando, o movimento de pinça apareceu e ela já conseguia pegar coisas pequenas como ervilhas e grãos de feijão. Tudo estava acontecendo de uma maneira muito natural, sem estresse, choro ou traumas.

Me concentrei, primeiramente, em apresentar cada alimento em sua forma mais verdadeira, para que ela soubesse o sabor e textura de cada um. Só depois comecei a variar as formas de apresentação, fazendo risotos, sopas, cremes, purês, frutas batidas ou cozidas, mingaus, etc. Usava alho, cebola, ervas frescas e desidratadas em abundância.

Da fase inicial, a única coisa que ela não curtia era laranja lima. Mais tarde, passou a aceitar numa boa.

Frequentei grupos de BLW, descobri receitas, criei outras e com isso eu, que ia pra cozinha muito raramente antes de ser mãe, redescobri o prazer de cozinhar. E fui apresentada ao maravilhoso mundo da alimentação consciente!

Descobri sabores, cores, comida de verdade, saborosa, fresquinha, preparada com amor, com ingredientes do bem. E não tem nada mais gratificante para uma mãe do que ver a cria se alimentando com gosto e feliz!

Claro que teve dia em que ela não comia determinada coisa ou comia só um pouquinho, mas isso era esperado, então eu não forçava e nem me preocupava. Nossa filha de quatro patas se esbaldava com os quitutes rejeitados por Maria Victoria.

Maria Victoria já maior, comendo com prazer!

Maria Victoria já maior, comendo com prazer! Crédito: Ledyane Azevedo

BLW faz uma baita sujeira no começo, exige paciência e confiança no bebê, mas os resultados são muito positivos!

Maria Victoria completa 19 meses essa semana e desde os 11 meses come a comida da família. Continua comendo sozinha, mas aos 13 meses, mostrou interesse em se aventurar com talheres, até que trocou as mãozinhas por eles.

Conhece todos os alimentos, come super bem e de tudo, porque gosta. Nunca precisei forçá-la a comer, nem ligar a TV pra distraí-la. As refeições são momentos gostosos de interação entre a família, mesmo com um bebê em casa.

E o mais importante, ela NUNCA engasgou!

BLW é vida! Amo e recomendo!”

FONTES E MAIS INFORMAÇÕES:

http://nourishedkitchen.com/baby-led-weaning/

http://www.babyledweaning.com/some-tips-to-get-you-started/

http://www.projetodemae.com.br/2013/03/12/nada-de-papinhas-e-sopas-introducao-alimentar-e-blw/

http://parenting.blogs.nytimes.com/2014/01/27/trusting-a-baby-to-know-how-to-eat/?_php=true&_type=blogs&_r=0

 Mônica SouzaMônica Souza é cozinheira e adora falar sobre alimentação saudável e comida de verdade. Odeia comida de caixinha e acredita que sua missão no mundo é despertar o chef de cozinha que existe dentro de cada um de nós. Pilota o fogão lá na Cozinha Consciente.